Espaço de Vida A DIFÍCIL MISSÃO DE AJUDAR (2)

Li, recentemente, a seguinte consideração: “a natureza não se importa. Se você acha que tem o direito de sobreviver, precisa provar”.

Pensei, com meus botões, “poxa! Se para sobreviver é necessário provar o merecimento, o que dirá para viver”, uma vez que viver implica em muito mais do que apenas submeter-se à correnteza.

Viver tem a ver com fazer escolhas sobre seguir, ou não, a correnteza e mesmo sobre qual correnteza seguir, caso se decida fazê-lo. Lembro-me de um pensamento de Adélia Prado sobre que “ser infeliz é fácil. É só deixar rolar. Ser feliz custa até a última gota do meu sangue”.

O pensamento ocorreu-me a propósito do quão difícil ‘é’ tudo o que realmente importa sobre viver e ser feliz.

Recebo mensagens, até com certa frequência, dizendo que viver é fácil, nós é que complicamos. Bem, penso que as palavras é que são fáceis. Viver não tem nada a ver com ser fácil.

Basta saber que precisamos aceitar escolhas que não são nossas e tudo se complica. Além do mais, viver envolve negociações que não tem a ver, necessariamente, com ser feliz. Às vezes tem a ver, simplesmente, com necessidades.

Assim, quando uma pessoa recebe um diagnóstico de câncer, a necessidade familiar de que se reverta rápido e totalmente o quadro ameaçador passa a ser a razão de viver.  Aliás, tal quadro, muitas vezes, é concebido como acontecimento possível apenas na casa do vizinho, espreitada de uma segura e confortável distância da janela de nossa própria casa.

Até acontecer o fenômeno desta doença em uma família, esta se acredita imune.  “Bate na boca para não atrair desgraça”, é dito como se a questão fosse de puro azar.

Bem, como eu já abordei em outros artigos, quando um familiar adoece, a família adoece junto. Entretanto, embora este adoecimento de todos, existe, de fato, uma só pessoa que perde o chão de maneira inequívoca. Essa pessoa é a portadora da doença, é a quem o diagnóstico se refere e, doravante, será denominada paciente. Em seu corpo é que se travará uma longa luta feita de inúmeras batalhas e é o seu corpo que, objetivamente, precisará reagir.  De maneira plena, total, a garra terá que ser dela. Torcendo, de fora, fica a torcida.

Por isso, na família, enquanto a mente é povoada por fantasmas que nascem do susto e dos medos, a dor que dói é subjetiva. No paciente, além do que é subjetivo, mais os fantasmas nascidos do susto e dos medos, a dor é de uma concretude atordoante. Além da física, há o fato de saber que, dentro de si, cresce algo inexplicável.

Em acréscimo, a sua rotina sofre alterações radicais e súbitas à medida que ele é remetido a uma realidade feita de hospitais, de longas internações, de cirurgias, de fios, de químicas, de agulhas, de curtas internações circunstanciais, de inchaços e outros inúmeros efeitos colaterais e consequências do tratamento.

Em meio a tantos infortúnios, é justamente o paciente quem faz as perguntas mais difíceis: será que foi por que eu não chorava e trazia tudo sempre guardado dentro de mim que eu fiz câncer? Será que a minha maneira de ser é que desencadeou a doença? Será que é por que eu engordei? Será que é por que eu emagreci? Será que é por que eu tenho depressão?

Perguntas, assim, são duras por si só, mas, ainda mais o são pela culpabilidade que carregam.

No artigo anterior eu registrei o que escreveu o biólogo molecular americano, Robert A. Weinberg, sobre o câncer ser uma célula renegada, egoísta e insociável, que se aproveita de nossas fragilidades para fazer sua morada, traçar seu próprio caminho, inventar sua própria versão original de um tecido, ou órgão.

A ideia de que células desta natureza vivem dentro de nós é assustadora, mas, a de sermos nós os responsáveis pela sua instalação é impiedosa. Eu já disse uma vez e repito: não há nada mais cruel do que, além de ter um câncer, uma pessoa ouvir que ela o fez. Fazemos planos, fazemos sonhos, fazemos bolos, fazemos salgadinhos, mas, não câncer.

Por algumas vezes eu já estive, como ainda estou, às voltas com o papel de familiar e amiga que se apega a um fio de esperança de que tudo não passará de um tremendo pesadelo que irá se desfazer a um toque de fé, de determinação, de vontade.

Corro atrás de notícias, de informações, até perturbo excessivamente médicos com questões que, no fundo, não passam de uma maneira disfarçada de pedir a eles uma gota a mais de esperança dosada em palavras de confiança.

Por isso penso que, talvez, aí resida a parte difícil da difícil missão de ajudar: - a dificuldade de se importar.

Seria tão mais fácil apenas deixar rolar.

Assim como eu, eu sei que muitos de vocês não deixam a peteca cair. Algumas vezes perturbam até o próprio paciente querendo saber como ele está. E não é por mau agouro. Pelo contrário, é pelo desejo de incutir-lhe força e coragem e para que ele saiba que não está sozinho nessa. O mesmo que, possivelmente, ele faria caso fosse o contrário.

Também como eu, sei que, em alguns momentos, muitos de vocês se dirigem ao Alto e perguntam: e agora, como é que fica?

Folheando a esmo, deparei-me com algumas passagens bíblicas que reproduzo aqui. Creio que cabem a todos nós:

                                   Fostes vós que plasmastes as entranhas de meu corpo, vós me tecestes no seio de minha mãe. Sede bendito  por me haverdes feito de modo tão maravilhoso (Sl 138,13014) ...  agora, o machado está sobre as raízes das  árvores” ... (Lc3,9)  

 Até a próxima

 Gláucia Telles Sales

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