Espaço de Vida TRATANDO DA PESSOA DO PACIENTE

 

Estive em Belo Horizonte participando do Seminário para Pacientes e Familiares promovido pela IMF. Como em todos os Seminários até aqui realizados, pude perceber que continua valendo a força da união, a força do conjunto na importante tarefa de divulgação de informações sobre o mieloma.

São muitas as pessoas que relatam terem sido tratadas de outras doenças e só tardiamente, às vezes após anos, terem recebido o diagnóstico diferencial. 

Mesmo sendo quatro vezes mais frequente que a leucemia, o mieloma é, ainda, desconhecido de vários médicos, o que impossibilita o início do tratamento correto.

Dra. Vânia Hungria e Dr. Ângelo Maiolino, da diretoria científica da IMF, insistem, em cada Seminário, para que as pessoas passem a incluir o exame denominado eletroforese de proteína sérica dentre aqueles habitualmente feitos para controle anual da saúde, como glicose e colesterol, uma vez que a expectativa é de que o mieloma venha a tornar-se uma doença crônica passível de ser mantida sob controle como o é, por exemplo, o diabetes. Mas, para isso, é preciso que a classe médica tenha mais conhecimento da realidade da doença e da importância de se detectá-la o mais cedo possível.

Lembro-me da primeira vez que, em consulta, eu solicitei a um médico, clínico geral, a inclusão do pedido deste exame. Ouvi como resposta: mas que bobagem!

Bem, não é bobagem, e cabe lembrar o pensamento humanista de Hipócrates, o pai da medicina:

                        Se, em virtude de sua experiência insuficiente, o médico não vê a  situação de modo claro, que chame outros médicos em conferência de modo que, após um estudo em conjunto, o estado  do paciente se torne claro e ele possa ser auxiliado. (CASTIGLIONI, 1947, p.187, Vol. 1).

 

Falando em pensamento humanista, Belo Horizonte conta com uma sua querida representante, Dra. Rosa Malena. Ela destaca a importância de se tratar a pessoa do paciente e não, simplesmente, do paciente.

Isso porque, entre profissionais que abraçam esta proposta, existe o cuidado, quase uma delicadeza, de se entender que uma pessoa não é a doença da qual ela é portadora. Que uma pessoa não se limita e nem se resume às suas doenças. E que, mesmo sob os caprichos de uma mesma doença, cada pessoa tem a sua própria experiência. A individualidade não se anula pelo que é comum.

É cada um que tem a sua própria vida posta em xeque e lida com o fato da doença à sua maneira, do seu jeito.

Lembro-me do poema Divisas, traduzido pelo pai do Teatro Espontâneo, J.L.Moreno, publicado em Viena, em 1914. Não irei retratar o poema inteiro, apenas as seguintes partes:

                        Mais importante do que a ciência é o seu resultado,
                        Uma resposta provoca um centena de perguntas...

                        Mais importante do que a poesia é o seu resultado
                        Um poema invoca uma centena de atos heroicos ...

Cada um tem as suas próprias perguntas, cada um tem os seus próprios atos heroicos, o que, muitas vezes, é difícil de ser compreendido.

O comum é a massificação, é a generalização, é o tomar-se o um pelo todo, e não é bem assim. Uma pessoa, tal como uma unidade indivisível, deve ser contemplada e compreendida através de sua própria história de vida, que é tanto a história de sua saúde, quanto de sua doença, de suas alegrias, quanto de suas dores e tristezas. A história da formação de sua identidade a partir de todos os seus movimentos em momentos pessoais.

Dra. Rachel Naomi Remem, já citada em muitos de meus artigos anteriores, diz que no centro de cada história está o mistério e que as razões que atribuímos aos eventos podem ser bem diferentes da verdadeira causa dos mesmos. Que o mistério é um processo e, também, é um processo nossa compreensão dele. 

Assim, cada pessoa traz em si os seus mistérios e o mistério da formação de suas doenças. Para compreendê-las, é necessário tentar compreender todo o processo.

O mieloma é um câncer de medula óssea e muito se tem andado nas pesquisas quanto às melhores formas de tratamento, mas, as medulas ósseas continuam sendo individuais.

Por isso, embora o diagnóstico comum, a compreensão da pessoa do paciente precisa continuar focada na individualidade.

Existe um exercício poético muito bom, cuja prática eu recomendo, com todo carinho, aos médicos. É parte do poema Divisa, traduzido por Moreno:

                        Um encontro de dois: olhos nos olhos, face a face.
                        E quando estiveres perto, arrancar-te-ei os olhos
                        E colocá-los-ei no lugar dos meus;
                        E arrancarei meus olhos
                        Para colocá-los no lugar dos teus;
                        Então ver-te-ei com os teus olhos
                        E tu ver-me-às com os meus.

Um diagnóstico feito com esta perícia há de ser, verdadeiramente, diferencial.

Finalizo, com a citação considerada como a mais perfeita exposição da ética médica em toda a literatura existente, exposta por Aristóteles em Da conduta honesta (Decorum) e Dos preceitos:

Não há grande diferença entre medicina e filosofia, porque todas as qualidades de um bom filósofo devem ser encontradas no médico; altruísmo, zelo, modéstia, uma aparência digna, seriedade, julgamento tranquilo, serenidade, decisão, pureza de vida, o hábito da concisão, conhecimento do que é útil e necessário à vida, reprovação das coisas más, um espírito livre de desconfiança, devoção à divindade. (CASTIGLIONI, 1947, p.187, Vol. 1).

Abraço a todos e até a próxima.

Gláucia Telles Sales

 

CASTIGLIONI, A. - História da Medicina. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1947, v.1.

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