Espaço de Vida ARTIGO 85: RELACIONAMENTO - PARTE 01

Uma das coisas mais difíceis de se ter na vida é relacionamento. Não é fácil conviver com pessoas, principalmente, quando são diversas de nós, defensoras de outras culturas, outros credos, com ideias nem sempre compatíveis com as nossas, habituadas a costumes que nos são estranhos.

Somos muito afeitos ao nosso jeito de ser e fazer a vida funcionar. Apegados ao que nos é familiar, olhamos para o outro com suspeita. Avaliamos o que lhe é característico como sendo errado e criticamos suas escolhas com base nos ditames de nossa própria cartilha pessoal, mas, sempre, sob o véu da humilde justificativa de que trata-se de sabedoria universal. Do nosso universo, bem claro. O que é bom para mim, é bom para você. O que é bom para você, nem sempre é bom para mim.

Um antigo professor meu costumava dizer a respeito do que lhe era estranho:- como eu não entendo o que falam, para mim, eles falam chinês. Tudo o que a minha mente não reconhece, é chinês.

Viajando em conjecturas, eu concluí que relacionamentos, por serem feitos de uns que nem sempre entendem outros, e vice-versa, podem ser chinês.

Chinês é tudo o que eu não entendo.

Todo pensamento que eu não entendo, todo sentimento que eu não entendo, toda decisão, cujas razões eu não entendo, é chinês.

Se eu não entendo, mas, tenho que aceitar e, mais que isso, conviver, aí, além de ser chinês, é complicado e relacionamento complicado é indigesto e coisa indigesta pode tornar-se ácida para a alma e acidez, segundo pesquisas científicas, é prejudicial à vida. Eu fiz uma costura direta no raciocínio para chegar ao seguinte: acidez passou a ser considerada a causa primária do câncer.

Segundo o fisiologista e bioquímico alemão, Otto Heinrich Warburg, a parceria entre câncer e acidez funciona, mais ou menos, assim: a acidez expulsa o oxigênio das células e oxigênio é fundamental para o funcionamento celular normal. A presença de oxigênio deixa o meio alcalino, que é o meio contrário ao ácido. A propósito, o nome alcalino vem do latim e significa o que concorda. Em meio alcalino, temos células sadias, felizes, oxigenadas. Em meio ácido, adeus harmonia e felicidade e as células ficam diante da eminência de se tornarem malignas.

Então, quando há concordância em relacionamentos, tudo rola redondo. As dificuldades surgem quando há discordância.

Bem, eu espero não estar forçando a barra, mas, penso que fazer uma analogia entre relacionamentos ácidos e doenças não é nenhum absurdo. Pensem bem; se a nossa fisiologia saudável é afetada pela acidez, a nossa natureza humana também pode ser. Quando duas, ou mais pessoas, travam intensas batalhas verbais, não sendo preciso chegar-se às vias de fato, o ambiente fica ácido. O ambiente fica pesado. O ar parece que tem chumbo e quase dá para se enxergar partículas de emoções que não foram metabolizadas depositarem-se como tristes e opacos cristais nos corações. Então, em concordância, céu de brigadeiro. Discordância, inferno na terra.

Quero ressaltar que o dr. Warburg estabeleceu, como lei, o fato de que os tecidos cancerosos são tecidos ácidos e os tecidos saudáveis são tecidos alcalinos. Células cancerosas podem viver sem oxigênio e, segundo ele, isso é regra sem exceção: falta de oxigênio e acidez são as duas caras de uma mesma moeda; quando você tem um, você tem o outro.

Voltando para relacionamentos, eu pensei em amor e ódio como sendo, também, faces de uma mesma moeda. Amor, ódio e seus derivados. Ódio é acidez pura. Raiva é acidez pura. Agressão, de qualquer tipo, é acidez pura.

Agressão e não agressividade, uma vez que são entidades diferentes. Agressão sempre tem um sentido de nocividade. De alguma maneira fere, machuca, traumatiza. Agressividade, nem sempre. Ela é benéfica quando ocorre como afirmação de um domínio pessoal, como um impulso fundante da própria identidade, como uma capacidade para superar obstáculos. Ela é um malefício quando se caracteriza como uma ofensa, como uma violência contra o outro, ou, contra si próprio. Aliás, isso me faz lembrar a máxima que diz que o ódio é a dose diária de veneno que a gente toma esperando que o outro morra.

A raiva é o humor que rói as nossas entranhas, que come por dentro o nosso estômago, enquanto a gente deseja que o outro pague pelo que fez.

Isso me remete ao proclamado pelo filósofo Jean Paul Sartre de que não há necessidade de grelhas, o inferno são os outros. Mas, ele proclamava, também, que, sem a convivência com o outro, uma pessoa não pode perceber-se por inteiro: o ser Para-si só é Para-si através do outro. (Sartre)

O poeta inglês John Donne, muito antes de Sartre, ponderou:

Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra... a morte de qualquer homem diminui-me, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti.  

Dá para ver que, dobrem os sinos por quem for, viver não é fácil. Se com o outro é difícil e sem o outro impossível, é meio que se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. Adicionando a este rolo o ingrediente livre arbítrio, o direito de escolha, o tal de “o problema é meu, a vida é minha”, sempre dito em alto e bom som, aí, está dado o nó no pacote.

Nós criamos meios ácidos, alcalinos, sem considerarmos, no auge do exercício de nossa autonomia, que, se nenhum homem é uma ilha isolada, o pato será pago por todos que nos rodeiam.  

As consequências de nossas atitudes irão respingar sobre todos.

Quando adoecemos, então, ... você terá que esperar pelo próximo artigo para saber onde eu quero chegar e, também, para saber como é que o amor entra nessa história.

Aliás, por entender o que é o amor, tal como o fez Danilo Caymmi:

                O que é o amor, onde vai dar

Parece não ter fim

Uma canção, cheirando a mar

Que bate forte em mim

 

Abraços e até a próxima!

Gláucia Telles Sales