Espaço de Vida ARTIGO 85: RELACIONAMENTO - PARTE 02

Olá!

Estamos próximos de finalizar o ano de 2012 e eu continuo aqui, falando com vocês sobre câncer e seus derivados na vida. Lembram que eu escrevi, lá atrás, que só queria falar sobre vida? Pois é, não deu.

Para falar sobre vida, precisei falar sobre morte. Para falar sobre saúde, precisei falar sobre doença, mais especificamente, sobre os estragos psíquicos, emocionais, espirituais, que o conjunto de mais de 100 doenças, chamadas câncer, causa na vida da pessoa do paciente e seus familiares.

Câncer é um fantasma que aterroriza a humanidade há séculos e séculos antes de Cristo, mas, por Cristo! Continuamos a não querer nada com ele, com as suas células que se parecem a caranguejos pelo seu formato, como disse Aristóteles, considerado o pai da medicina, porque são caranguejos que cravam malignidade por onde passam. Cravam no corpo. Cravam na alma.

No imaginário popular, câncer ainda é uma ameaça que faz paralelo com sinônimo de morte, a senhora absoluta dos terrores humanos. E parece que a ameaça só piora à medida que chegam noticias informando que todos temos um câncer dormindo dentro de nós. (SCHREIBER , 2011, p.21).  Isso não é nada agradável de se saber.

Não há prazer na ideia de que todos nós podemos, de repente, desenvolver um câncer. Que a genética adormecida pode despertar na nossa vez, ou, que, na nossa vez, pode se iniciar um processo que resultará na constituição do patrimônio de uma herança totalmente dispensável. Que para evitar tal possibilidade, precisamos mudar a nossa maneira de viver. A mudança inclui uma infinita e enlouquecedora lista de cuidados que ocupam e preocupam quem se dispõe a segui-los ao pé da letra e parece que preocupação e pé da letra, também, dão câncer.

No artigo anterior, eu abordei a relação entre meios ácidos, meios alcalinos e câncer, outro aspecto polêmico que faz parte da longa lista. A tese defendida é a de que células saudáveis precisam de oxigênio para o seu bom funcionamento e que o meio favorável à boa oxigenação celular é o meio alcalino. Acidez rouba o oxigênio das células, prejudicando o seu funcionamento e favorecendo a incidência de células cancerígenas, que sobrevivem sem oxigênio. A concepção, portanto, é de que os terrenos ambientais ácidos, somados a maus hábitos de vida, estão na raiz do desencadeamento da doença e o seu crescimento.

No artigo, eu levei a proposta para o lado dos relacionamentos. Considerei que fazer uma analogia entre relacionamentos ácidos e doenças não seria nenhum absurdo. Ódio e seus derivados seriam sentimentos ácidos, assim como o oposto, amor e seus desdobramentos, sentimentos alcalinos.

Bem, para a psico-oncologia, vários são os fatores que podem colaborar para o processo de crescimento de um câncer, assim como para o seu arrefecimento. Neste caso, além de questões psicossociais, constam o jeito pessoal de ser e a garantia de se ter pessoas com quem se construiu, ao longo da vida, relações confiáveis. Para quem se pode correr, em busca de chão seguro, quando a vida tira o seu próprio chão.

Você tem isso? Você tem para quem correr em busca de chão seguro?

A palavra confiança vem do latim confidentia, de confidere, que significa acreditar plenamente, com firmeza. Fidere deriva de fides, fé.

Maria Paula Machado tem uma historinha bastante ilustrativa da importância deste fenômeno relacional, no site paralerepensar. Pela ocasião de um assalto em uma residência, levado a termo por três homens encapuzados, uma menina, de 9 anos, lia o seu livro, enquanto a família se atemorizava. A mãe, querendo se assegurar de que a filha não se assustasse muito, procurou o seu olhar e lançou-lhe um sorriso e uma piscadela. Devolvendo o sorriso, a menina, apenas, olhou para os ladrões e voltou, tranquila, à sua leitura, abstraída do que se passava ao seu redor. No dia seguinte, enquanto processava os acontecimentos, o susto, o medo, a família se preocupou com a reação apática da menina, que esclareceu: - tive medo quando os ladrões entraram, mas, quando a mamãe sorriu para mim, entendi que tudo ia ficar bem. A menina confiou.

Maria Paula faz, ainda, um paralelo entre confiança e credibilidade, dizendo que enquanto confiança é intrínseca, subjetiva e bilateral, credibilidade é lógica, unilateral e racional. Ela surge a partir de indicadores mensuráveis sobre o objeto no qual se pode, ou não, acreditar. A confiança é um sentimento que se constrói aos poucos, e com poucos, e apazigua o espírito. A credibilidade se constrói a partir de evidências racionais e tranquiliza a mente. Ambas são conquistas diárias. Ambas requerem integridade, retidão e compromisso. A autora termina o seu artigo com o seguinte:

                                             "Quem vigiará os vigias?"... “na dúvida, procure sinais externos de credibilidade. Se não há paz, ou é preciso explicitar provas, não deve ser confiança”.
 

Uma doença, como o câncer, não vem sozinha. Ela é seguida por uma legião de impostores, um manual de normas a serem cumpridas à risca, limites compulsórios que irão colocar você sob uma dependência necessária, em detrimento da liberdade de ser e fazer as coisas à sua maneira, o que, até então, você tinha. E eu pergunto: você tem em quem confiar para poder viver esta dependência necessária? 

Você tem em quem creditar fé? Tem almas humanas que deixará tocar e cuidar da sua?

Retomando a questão de ácidos e alcalinos, acrescento; você tem, em sua vida, relacionamentos que não sejam ácidos? Você tem o que concorda, o entende e ama, acima de toda e qualquer desavença?

O adoecer deve ser compreendido como um processo histórico-biológico, que se desenvolve em circunstâncias adversas. O diagnóstico de uma doença significa mais que a identificação de um estado mórbido, mas, sobretudo, a detecção de um modo particular de existir, um existir doente, cuja elaboração vem se processando ao longo da história biopsicossocial da pessoa. (PERESTRELLO, 1996).

Você tem refletido sobre o seu adoecer?

Eu tenho uma incômoda tendência de acreditar no que disse o filósofo Jean- Paul Sartre, de que o homem não é nada mais do que aquilo que faz a si próprio. Incômoda, porque, para variar, seria tão bom poder tributar tudo ao acaso.

O meu consolo é que acredito, também, no inconsciente.

Sem mais perguntas, pelo menos por ora, um forte abraço a todos.

Gláucia Telles Sales.

 REFERÊNCIAS

 PERESTRELLO, D. A medicina da pessoa. São Paulo: Ateneu, 1996.

SERVAN- SCHREIBER, D. Anticâncer: prevenir e vencer nossas defesas naturais. 2.ed.rev. e ampl. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.

 Você pode consultar também o site: http://www.paralerepensar.com.br/