Notícias e Destaques
Carta Capital publica: Brasil barra medicação contra câncer na medula
Há cerca de três anos, pacientes de mieloma
múltiplo, a indústria farmacêutica e a
Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) travam uma queda de braço pela
liberação do medicamento lenalidomida no
Brasil.
A droga utilizada no tratamento do mieloma múltiplo, um
tipo de câncer incurável da medula óssea,
é aprovada em mais de 70 países, segundo a
International Myeloma Foundation (IMF). Para especialistas, o
medicamento é uma das opções mais eficientes
no controle da doença, mais comum em pacientes acima de 60
anos.
Nesta “disputa”, a IMF se movimenta publicamente
para pressionar a Anvisa e conduz um lobby em busca da
aprovação da droga. Em setembro de 2011, entregou ao
órgão de saúde um documento com mais de 22 mil
assinaturas para a liberação do medicamento.
A IMF é a maior organização voltada para
mieloma do mundo e financia diversas pesquisas na área. Dos
seus cerca de 100 mil integrantes, 50 mil possuem a
doença.
Vânia Hungria, professora da Santa Casa de São
Paulo e Diretora Técnica da entidade, não ignora o
interesse do laboratório em entrar no mercado brasileiro,
mas defende também ser preciso analisar a eficácia do
medicamento. “A aprovação do remédio vai
garantir outra opção de tratamento, embora nem todas
as pessoas precisem recorrer a essa droga”, diz a
CartaCapital, no 53º encontro anual da Sociedade Americana de
Hematologia (ASH, sigla em inglês), em San Diego, Estados
Unidos, no início de dezembro.
Em diversos países da Europa e nos EUA, a lenalidomida
é utilizada como primeira opção no tratamento
do mieloma múltiplo, apoiada em estudos clínicos bem
sucedidos. A Anvisa informou, contudo, em setembro de 2011, que
três áreas técnicas diferentes negaram o
registro do medicamento no País por não
considerá-lo seguro ou eficaz.
Procurada pela reportagem de CartaCapital, a agência de
saúde declarou, por meio da assessoria de imprensa, que
não tem posicionamento em relação ao
medicamento por este não ser registrado. “O processo
de aprovação do produto corre em sigilo, por isso
não há detalhes sobre o mesmo”, diz a
nota.
“A Anvisa quer estudos de comparação entre
o medicamento de primeira linha no Brasil com a lenalidomida que
são desnecessários, pois a droga tem resultados
comprovados”, justifica a professora Hungria.
O remédio “padrão” no Brasil,
aplicado ainda no tratamento da hanseníase, também
é considerado eficiente por especialistas consultados pela
reportagem de CartaCapital, além de ter baixo custo. Por
outro lado, a medicação possui efeitos colaterais
capazes de atrapalhar o tratamento e de comprometer a qualidade de
vida dos pacientes.
Entre os problemas mais citados, estão o aparecimento
de neuropatias, como o formigamento das extremidades do corpo, e a
perda total de sensibilidade nestas áreas. Problemas que
impedem os pacientes de utilizar a medicação por um
tempo prolongado. “A doença não tem cura. As
pessoas tratam, melhoram, recaem e tratam novamente”, aponta
Hungria.
Neste aspecto, a lenalidomida, segundo especialistas, é
melhor tolerada pelo organismo e os pacientes conseguem
utilizá-la por mais tempo. Isso não significa,
porém, que a droga seja livre de efeitos colaterais.
Além da controvérsia sobre tratamentos, Hungria
aponta que no Brasil a doença costuma ser diagnosticada em
estado avançado. “A maior parte dos casos poderia ser
identificada pelo exame eletroforiage de proteínas, que
deveria ser inserido na lista check up por servir para identificar
outras doenças após os 40 anos de idade.”
Segundo a professora da Santa Casa, estudos indicam que a
doença atinge quatro a cada 100 mil pessoas. “No
Brasil, não há dados precisos. Mas, nos Estados
Unidos estima-se que cerca de 19 mil casos sejam identificados
todos os anos.”
A professora da Santa Casa destaca a necessidade de o Brasil
se posicionar de maneira mais atualizada em relação
aos medicamentos necessários para tratar doenças
graves. “Há muitas opções novas
aparecendo, mas no caso do mieloma múltiplo ainda estamos
atrasados.”
E essas evoluções já se mostram
promissoras. Na última edição do ASH, uma
droga em fase de testes clínicos despontou como a
possível terceira geração de medicamentos
contra o mieloma múltiplo.
Estudos mostraram reação positiva ao tratamento
em pacientes que não respondiam mais aos remédios
disponíveis. “Alguns deles já haviam enfrentado
cinco tipos de tratamento. Entre os trabalhos houve índices
de resposta entre 34% e 50%.”
Com informações Agência Brasil.
Fonte: Carta Capital
















