Notícias e Destaques DIÁRIO DE UM PACIENTE: A primeira vez a gente não esquece

            Olá! Meu nome é Linneu e gostaria de fazer um pequeno relato do que me aconteceu em fins de 2015 quando fui diagnosticado com mieloma múltiplo, ou como eu gosto de chamá-lo, meus MM’s. Ainda estava cedo, e a decisão de escrever sobre o assunto veio somente depois de passar 13 dias no hospital para avaliação. Ao escrever percebi que isto fazia muito bem pra mim, mas não só isso; as pessoas que liam (doentes ou não) também gostavam e se sentiam motivadas com meu exemplo. Espero que vocês também curtam.

            Depois de 15 dias em férias, carregando minha filha, Lanna, pra lá e pra cá em um canguru (na época ainda não tinha dois anos), tinha mais do que certeza de que as dores lombares e no tórax eram resultado de tal abuso (mesmo que tais dores tivessem começado mais de um mês antes). Ao consultar um ortopedista, o mesmo havia receitado alguns remédios mas, por precaução, caso não fizessem o efeito desejado, já havia encomendado uma ressonância. E lá estávamos nós agora, no consultório do ortopedista enquanto ele examinava o resultado da ressonância. Eu digo “nós”, porque a minha mulher, num rompante de sexto sentido feminino, resolveu ir junto à consulta, algo normalmente desnecessário (os anos me fizeram aprender a não dar as costas a este sentido feminino).

            Bem, o médico lia o resultado com especial atenção. Seu rosto, vejo hoje em retrospectiva, era um misto de preocupação e urgência. Foi quando ele virou pra mim e perguntou:

- Você leu o resultado?

            Ao que respondi:

- Sim... eu vi que existem algumas fissuras e micro fraturas... eu me lembrei que na última consulta esqueci de falar pro senhor que eu sofri um acidente dois anos atrás...

            Ele não me deixou terminar.

- Não, não, não, não. É que aqui diz que essas fraturas são devido a uma “neoplasia”.

            Eu que entendo “muito” de medicina, nunca tinha ouvido tal palavra e nem tinha tido a curiosidade de procurar saber do que se tratava. Logo expressei minha ignorância ao doutor. Ele então começou a responder num ritmo mais lento, quase como quem não queria dar esta notícia.

- Quer dizer que... isto é de origem... tumoral – falou a última palavra num volume muito mais baixo e mais pesaroso que o normal.

            Fiquei um tanto quanto... bobo. Era a primeira vez que ouvia tal palavra sendo referida a minha pessoa. E depois de ter feito um check-up completo, cinco meses antes, onde fui elogiado pela minha condição física, confesso que não entendi direito o que ele queria dizer com aquela palavra, “tumoral”. Foi só quando perguntamos qual seria o procedimento de agora em diante que “completou o download” (ia dizer que “a ficha caiu” mas tem muitos jovens por aqui). Ele respondeu que deveríamos procurar um oncologista urgente. É, aí eu entendi exatamente o que ele queria dizer com “tumoral”.

            Minha mulher logo deixou aflorar seu lado alarmista e já solicitou nome de um bom especialista e dedicou-se a marcar a consulta ali mesmo antes de deixarmos a clínica. Enquanto eu lidava com o lado prático de buscar o receituário de mais um exame pedido pelo médico. Quando saímos de lá e chegamos ao carro ela não agüentou: chorou, chorou e chorou. Eu, no meu lado prático, apenas a consolava e lembrava que se tratava apenas de uma suspeita, de que acabamos de receber a notícia e não tínhamos nenhum diagnóstico.

            Isto foi numa quinta feira, a sexta passou corrida como qualquer outro dia, tinha faculdade neste dia e pouco conversamos sobre o assunto. Claro, pesquisei sobre os tipos de câncer com esta característica e claro, as conclusões a que cheguei não tinham nada a ver com a realidade (esta maldita/bendita INTERNET). Mas serviu pra eu chegar ao sábado pela manhã e conversar com ela sobre o assunto.

            Disse que não sabia o que seria, mas que tudo indicava que era grave, que tínhamos que ter equilíbrio e confiar em Deus e mais uma série de coisas. Também notei algo que compartilhei com ela. Desde que ela recebera a notícia me olhava de maneira diferente. Sabe quando vamos a um velório e nos aproximamos do caixão ainda aberto? Olhamos para o defunto com aquela cara... misto de tristeza, com pena, com inconformismo; misto de um monte de coisas, ... vocês sabem de que cara eu estou falando. Pois é, ela estava me olhando assim. Alertei-a disto e a comuniquei de que eu não morreria antes de Deus me levar (a decisão já estava tomada desde então). Não adiantou muito; ao longo do dia a via me olhando com aquela cara novamente, e eu sempre chamava a atenção dela. Foi uma vez, duas, na terceira eu não agüentei. Juntei minhas mãos em cima do peito, fechei meus olhos e joguei a cabeça um pouco pra trás, com a boca levemente entreaberta.  Quando ela viu a cena, percebeu o que estava fazendo e deu um sorriso. Foi o primeiro sorriso desde o início de tudo.

            Ela ainda choraria muito mais e com muito mais intensidade me confessaria depois, principalmente depois da minha internação. Cada um reage de um jeito. Ela chora, eu escrevo. Talvez ela seja mais normal que eu. Mas o que posso dizer é que não sei se teria escrito tudo o que escrevi nos últimos anos se ela não estivesse ao meu lado. No começo de tudo, Deus olhou para Adão ainda sozinho e disse que lhe faria uma ajudadora; como é bom olhar para sua própria esposa e perceber que ela é está ajudadora e que Deus a fez só pra você.  Lembro ainda de uma entrevista de Oscar Niemeyer já em idade bem avançada dizendo: “A vida é a mulher ao lado e seja o que Deus quiser...”. Assino embaixo.

 

 

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Meu nome é Linneu. Geralmente não falo meu sobrenome porque é estrangeiro e eu detesto estrangeirismo, parece pedante e nem todo mundo entende. É Santos, de origem européia, creio que portuguesa (rs). Sou formado em Economia e pós-graduado em Marketing, ah, e estou no fim do curso de Teologia (que espero terminar este ano se nenhum transplante me atrapalhar de novo). Mas eu adoro escrever, sempre gostei. Escrevi várias peças, um livro e sempre escrevi crônicas. Logo que minha filha nasceu escrevi várias como se ela estivesse relatando suas primeiras impressões do mundo. Foi muito divertido. Quando fui diagnosticado com mieloma, em novembro de 2015, não pude deixar de relatar minhas impressões também e, claro, como vocês já devem ter percebido, de um jeito divertido (nem sempre, mas na maioria das vezes). Afinal, o câncer não é o fim... quer dizer, às vezes é, mas nem por isso vamos adiantar o processo. Espero que vocês gostem do que vou relatar e que seja um momento de alívio cômico em meio a essa saga que é um tratamento como esse, afinal “rir é o melhor remédio”, mesmo quando não cura.

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