Notícias e Destaques DIÁRIO DE UM PACIENTE: Igual de bebê

            Pelo menos uma das previsões que as pessoas fazem a meu respeito está se cumprindo: meu cabelo voltou a crescer. Achei até que foi rápido. Mas, com o cabelo crescendo, também começa a ir embora aquela aparência de vilão elegante de filme de espionagem, ou de intelectual inteligente, concorrente do Pondé (quem me dera). No lugar vai ficando aquela aparência de fugitivo da rebelião em Manaus. Uma penugenzinha invisível com o cabelo preto ralo..., não é a coisa mais linda, confesso, mas está crescendo rápido. Minha barba também está crescendo, na verdade começou antes do cabelo. Consegui até cultivar uma pera! Meninas: pera é aquele cabelinho logo abaixo do lábio inferior e que muitas vezes não se liga com a barba ou cavanhaque. Também estou cultivando um pé de pêra d’água no meu quintal, mas este é outro assunto. Só a região dos... digamos... “países baixos” continua a mesma. Completa devastação. Ao que tudo indica funciona na base do “primeiro que cai, primeiro que cresce; último que cai, último que cresce”.

            Mas, apesar da aparência, esta semana recebi um grande incentivo. Minha mulher passou a mão na minha cabeça e disse com um grande sorriso: “Está tão gostosinho, parece cabelinho de bebê!” Aahhh! Já valeu a pena ter ficado careca, não?!

            E assim vamos indo. Como diz o ditado, “tudo passa, até a uva” (adoro piadinhas infames). E assim também vão passando os dias de sofrimento (que não foram poucos) dos últimos meses. Já ganhei seis quilos dos treze perdidos. O transplante deu certo (até agora, ainda tem muito que acontecer). A medula ainda produz muito pouca célula pra se ter um diagnóstico preciso sobre a doença, mas as estimativas são boas. Vou começar um novo ciclo de quimio que vai durar mais cinco meses (apenas como reforço). E à medida que o cabelo cresce, cresce também a esperança de entrar em remissão. Um dia de cada vez. Ou, neste caso, um mês de cada vez. Paciência é algo que tenho aprendido a desenvolver a cada dia...

                  

 

     

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Meu nome é Linneu. Geralmente não falo meu sobrenome porque é estrangeiro e eu detesto estrangeirismo, parece pedante e nem todo mundo entende. É Santos, de origem européia, creio que portuguesa (rs). Sou formado em Economia e pós-graduado em Marketing, ah, e estou no fim do curso de Teologia (que espero terminar este ano se nenhum transplante me atrapalhar de novo). Mas eu adoro escrever, sempre gostei. Escrevi várias peças, um livro e sempre escrevi crônicas. Logo que minha filha nasceu escrevi várias como se ela estivesse relatando suas primeiras impressões do mundo. Foi muito divertido. Quando fui diagnosticado com mieloma, em novembro de 2015, não pude deixar de relatar minhas impressões também e, claro, como vocês já devem ter percebido, de um jeito divertido (nem sempre, mas na maioria das vezes). Afinal, o câncer não é o fim... quer dizer, às vezes é, mas nem por isso vamos adiantar o processo. Espero que vocês gostem do que vou relatar e que seja um momento de alívio cômico em meio a essa saga que é um tratamento como esse, afinal “rir é o melhor remédio”, mesmo quando não cura.

 
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