Notícias e Destaques DIÁRIO DE UM PACIENTE: Super-heróis

 

            Existem ideias e pensamentos que ficam retidos em nosso subconsciente de maneira tão profunda que sequer nos damos conta disso. Por exemplo, mulheres são princesas. É muito comum ver garotinhas em festas vestidas de princesas, às vezes até em shoppings ou lugares comuns como um supermercado. Quando você menos espera, lá está uma menininha toda feliz em seu vestidinho de princesa. Minha filha, que recém completou três anos, quando vê um desenho com princesas logo pára e fica admirando. O problema é que muitas continuam assim pelo resto de suas vidas, procurando um príncipe encantado e essas coisas. Bem, existem livros a respeito do assunto.

            Os homens por sua vez são super heróis. Qual homem que quando garoto não enrolou um pano em volta do pescoço e saltou do sofá dando um “vôo” ao redor da sala (quem for mais novo provavelmente já vestiu-se de Homem Aranha alguma vez)? Você não vê garotas vestidas de Mulher Maravilha ou Super Girl, elas são princesas e homens são super heróis.

            Isto, a exemplo das mulheres, fica arraigado em nossas mentes, mesmo sem percebermos. À partir deste fato, podemos chegar a algumas conclusões: porque homens não param para pedir informação quando estão perdidos? Imagine a seguinte cena, o Super Homem, do alto do seu poder, depois de dar várias voltas pelo planeta, descendo em uma esquina e perguntando a um guardinha onde fica tal lugar? Não rola! Ou o Batman, parando com aquela super máquina que é o Batmóvel em um posto de gasolina, baixando o vidro e perguntando ao frentista “como eu chego neste endereço?” Que é isso!!! Não existe. Somos super heróis, não dependemos de ninguém; se cairmos vamos levantar; nossas esposas nos admiram, nossos filhos também, e se não for assim tem alguma coisa errada... com eles. Não nos damos conta disso, mas muitas vezes é esse nosso comportamento.

            Pois é, nós homens, quando recebemos um diagnóstico de câncer como o que recebi (gente, a palavra é essa, sem frescura e sem politicamente correto que eu detesto) parece que algo nos é arrancado. Pela primeira vez percebemos que não somos super heróis; somos dependentes de nossas esposas, nossos parentes, nossos amigos e principalmente de Deus. Existe uma sensação inevitável de “Game over”, não que seja o fim, vamos continuar lutando e vivendo até as últimas consequências mas, em última instância, não está mais em nossas mãos, existe muito pouco que possamos fazer; dependemos de médicos, tratamentos e, em alguns casos, de milagres.

            Acho que só aí acordei e me dei conta de que eu não era um Super Homem. Aliás, estou mais pra um Tony Stark sendo envenenado pela armadura, como em Homem de Ferro 2, mas com uma situação financeira que está mais para um Peter Parker (o Homem Aranha). Por um momento ainda tive uma esperança. Na semana anterior a minha internação e também depois de internado, foram tantas ressonâncias, tomografias, cintilografias, radiografias (teve um dia que tirei quase 20 de uma só vez, para ver todos os ossos do corpo dos pés a cabeça), tanta radiação que eu pensei “Acho que agora eu viro o Hulk”, mas não rolou. Acho que a vida nos quadrinhos é bem mais fantástica que a vida real... ou Raio x não funciona do mesmo jeito que Radiação Gama, vai saber?!

 

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Meu nome é Linneu. Geralmente não falo meu sobrenome porque é estrangeiro e eu detesto estrangeirismo, parece pedante e nem todo mundo entende. É Santos, de origem européia, creio que portuguesa (rs). Sou formado em Economia e pós-graduado em Marketing, ah, e estou no fim do curso de Teologia (que espero terminar este ano se nenhum transplante me atrapalhar de novo). Mas eu adoro escrever, sempre gostei. Escrevi várias peças, um livro e sempre escrevi crônicas. Logo que minha filha nasceu escrevi várias como se ela estivesse relatando suas primeiras impressões do mundo. Foi muito divertido. Quando fui diagnosticado com mieloma, em novembro de 2015, não pude deixar de relatar minhas impressões também e, claro, como vocês já devem ter percebido, de um jeito divertido (nem sempre, mas na maioria das vezes). Afinal, o câncer não é o fim... quer dizer, às vezes é, mas nem por isso vamos adiantar o processo. Espero que vocês gostem do que vou relatar e que seja um momento de alívio cômico em meio a essa saga que é um tratamento como esse, afinal “rir é o melhor remédio”, mesmo quando não cura.

 

 

 

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