Notícias e Destaques DIÁRIO DE UM PACIENTE: Mascotinho

        Um dos fatos que mais me incomodou com o advento da doença, foi meu envelhecimento. Da noite pro dia, não podia mais me exercitar, carregar peso e fazer esforço físico. Ou seja, me tornei um senhorzinho. Entenda-se, daqueles sedentários e problemáticos, pois hoje em dia temos senhorzinhos e senhorzinhos. Bem, mas até então era uma coisa minha, ninguém via ou sabia disto. Mas no fim do ano passado, ao sair do hospital, cadavérico, pálido, fraco, careca, pareceu que a questão interna com minhas limitações encontrou o seu físico perfeito. Eu sempre tive uma aparência muito jovem, ninguém nunca me dava cinquenta anos, sempre achavam que eu ainda estava na faixa dos quarenta. Mas quando olhava no espelho e via aquele corpinho, parecia que eu já estava chegando aos sessenta, ou seja, envelheci dez anos de um mês pro outro.

        Mas este mês recomeçou a quimio de reforço (nãaaaaoooo!). E o local da quimio é um pouco diferente de onde estava acostumado a fazer o tratamento. Veja, no hospital, eu era instalado em uma sala individual e fechada; tinha várias mordomias, incluindo uma poltrona hightech e automatizada para reclinar ou levantar os pés e uma televisão de LED com todos os canais Telecine. Eu não tinha contato nenhum com outros pacientes, todos eles em outras salas individuais. Além do que era o setor de oncologia; ainda que tivesse contato, cada paciente tinha uma doença diferente.

        Agora mudei para uma clínica, um lugar menor. Os pacientes não ficam em salas, ficam em baias, tipo aquelas de escritório, só que de tijolos. Altas, não se consegue olhar por cima delas, mas a entrada é larga e ao passar em frente se vê quem está dentro. Mas as baias são para as pessoas com acompanhantes; como eu sempre vou sozinho, tem uma baia maior onde tem três poltronas disponíveis para o povo que vai sozinho (confortáveis, é claro, mas não automatizadas. Mordomia é algo que se acostuma muito fácil). Mas o mais interessante: o dia da minha quimio é o dia do Mieloma, quer dizer, todos os pacientes que estão ali estão tratando está doença. Pela primeira vez, então, pude perceber “in loco” um dado estatístico desta doença: ela atinge bem mais pessoas idosas. Percebi que naquele ambiente sou um mascote. A pessoa mais “jovem” que eu vi ali tinha bem mais de sessenta. A maioria tinha bem mais de setenta. Sou um meninão, perdido no meio daquele povo. Os ambientes que frequento e também boa parte dos meus amigos são todos mais novos que eu. Nunca estive em um ambiente onde eu fosse, de longe, o mais novinho. Isso até que me fez bem.

        Mas esta semana estive pensando. Minha barba está crescendo. Estão crescendo pelos no peito, nas pernas e nos... países baixos (ia dizer púbis, mas soaria muito antipático e afetado). Também nasceram algumas espinhas no rosto (efeito colateral da talidomida). Espera aí... vocês estão percebendo? Estou virando um adolescente. Que mascote que nada; sou um mascotinho, menino de tudo.

        E eu reclamando de envelhecimento... tenho uma vida inteira pela frente ainda...

 

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Meu nome é Linneu. Geralmente não falo meu sobrenome porque é estrangeiro e eu detesto estrangeirismo, parece pedante e nem todo mundo entende. É Santos, de origem européia, creio que portuguesa (rs). Sou formado em Economia e pós-graduado em Marketing, ah, e estou no fim do curso de Teologia (que espero terminar este ano se nenhum transplante me atrapalhar de novo). Mas eu adoro escrever, sempre gostei. Escrevi várias peças, um livro e sempre escrevi crônicas. Logo que minha filha nasceu escrevi várias como se ela estivesse relatando suas primeiras impressões do mundo. Foi muito divertido. Quando fui diagnosticado com mieloma, em novembro de 2015, não pude deixar de relatar minhas impressões também e, claro, como vocês já devem ter percebido, de um jeito divertido (nem sempre, mas na maioria das vezes). Afinal, o câncer não é o fim... quer dizer, às vezes é, mas nem por isso vamos adiantar o processo. Espero que vocês gostem do que vou relatar e que seja um momento de alívio cômico em meio a essa saga que é um tratamento como esse, afinal “rir é o melhor remédio”, mesmo quando não cura. Acesse: Memórias de um Mieloma – Mieloma Diaries https://goo.gl/AqJck7

 

 

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