Notícias e Destaques Já estava em remissão do mieloma, e tive recidiva. Como agir para enfrentar novamente essa batalha?

Hoje gostaria de fazer uma reflexão que é bastante difícil para os portadores de qualquer tipo de câncer, mas que por outro lado, também é extremamente necessária.

O termo câncer é utilizado para descrever centenas de doenças que se caracterizam principalmente por uma multiplicação desregulada de células. Existe então um acúmulo indevido destas células nos órgãos do corpo humano, comprometendo seu funcionamento.

 

Esta doença aflige a humanidade há séculos, entendo que por três grandes motivos:

1.   Ainda não conseguimos definir e controlar suas causas. O câncer é multicausal, ou seja, tanto itens do ambiente quanto da genética do organismo estão envolvidos no desarranjo do funcionamento celular;

2.  Em algumas situações é de difícil diagnóstico, pois pode ser assintomático. Apenas utilizando exames é que se pode determinar um diagnóstico preciso – mas nem sempre são acessíveis a maioria da população;

3.  Tampouco conseguimos ministrar tratamentos para obter uma cura definitiva para todos os tipos de câncer.

 

Estas condições que permeiam a doença geram na população de forma geral uma grande ansiedade.  E quando dizemos que um paciente está em remissão, mas por algum motivo o mieloma voltou, é extremamente natural que o medo, a ansiedade, a revolta, a desesperança e qualquer outro tipo de sentimento se faça presente logo após esse novo diagnóstico.

 

Compreender um pouco desse contexto é importante, porque nos ajuda a entender todos esses sentimentos. Eles são absolutamente genuínos, compreensíveis, e a primeira questão que precisamos pensar é que precisamos ACEITAR esses sentimentos, pois negá-los não fará com que eles desapareçam.

 

Mas aceitar os sentimentos não significa se subjugar a eles, ou seja, devemos aceitar que estamos nos sentindo tristes, confusos, temerosos quanto o amanhã, sem esperança as vezes, mas isso não significa que devemos deixar que esses sentimentos dominem nossas ações.

 

Vejamos um exemplo para ficar mais claro:

É importante que eu entenda os motivos pelos quais eu possa estar revoltada, me perguntando:  Por que eu novamente? O que fiz de errado? Tenho uma vida saudável e esse câncer aparece novamente?  E meus filhos, minha vida, meus sonhos?????

Faz muita diferença entendermos que é natural que eu me sinta assim frente a um diagnóstico de uma doença para a qual eu já estava curada.  Eu devo permitir me sentir assim, devo extravasar meus sentimentos, chorar ...

Mas isso não significa que eu deva me permitir ser agressiva com as outras pessoas.

Sentir revolta, raiva, medo é real e deve ser respeitado.  Entretanto não justifica que, por eu estar me sentindo assim eu tenha ações agressivas.  E ser agressivo com os outros só me trará mais prejuízos emocionais, pois provavelmente serei agressiva com os mais próximos, aqueles que são meus cuidadores.  E quando eu me acalmar, é provável que além de todos os outros problemas, ainda me sinta culpada por ter maltratado quem mais tem me apoiado.

 

Então o primeiro passo seria compreendermos que nós podemos nos sentir mal, mas não devemos agir de maneira inadequada.  Respeitar o sentimento é um ponto.  Justificar uma ação errada por um sentimento, isso não resolve o problema, e provavelmente só causa mais transtornos.

 

Outro ponto que precisamos considerar é que nós somos os responsáveis por tomar as decisões em nossas vidas.

 

Segundo o dito popular: a morte é a única coisa certa na vida!  É um fato.  A única certeza que todos nós temos é de que um dia, de alguma maneira, iremos morrer.  Não sabemos quando nem como, mas sabemos que a morte é inevitável para qualquer um.

 

Posto isso entendo que a morte não seja trazida para sua vida como uma novidade, mas que você, independente do diagnóstico do câncer, da recidiva, que você se preocupe mais com a vida.  Em como você pretende viver os dias que tem pela frente.

 

Qual a qualidade de vida você busca?

O que você pode fazer para melhorar isso a cada dia?

Com quem você gostaria de estar?

O que você gostaria de falar para quem você ama?

Como você quer ser lembrado quando não estiver mais por aqui?

 

Tudo isso depende do que estamos fazendo hoje!

 

Não sabemos quando tudo isso irá acabar...  portanto a recidiva é mais uma desafio que você tem pela frente para lutar por sua qualidade de vida.

Fácil?  Claro que não!  Quem disse que seria?!

Mas você já passou por isso e já tem experiência para entender que há alternativas de tratamento, há possibilidades para enfrentar as dificuldades e alcançar o bem estar.  Você já venceu uma vez.  Por quais motivos não vencerá novamente?

O segredo?  É acreditar que todos os dias é possível fazer diferente e assim alcançar novos resultados.

 

 

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Erika Scandalo -  especialista em Psicologia Clínica, escreve sobre a vida e diferentes formas de aproveitá-la.  Acredita que a felicidade é consequência de uma visão proativa sobre as dificuldades.  Ser feliz é mais um olhar sobre o que se tem, do que ter tudo o que se quer.