Notícias e Destaques DIÁRIO DE UM PACIENTE: Broncas

        Estou me sentindo muito bem. Claro, ainda não sou o que eu era pré-diagnóstico, mas a última vez que me senti bem foi logo após o fim do primeiro ciclo de quimios no começo do ano passado, e hoje estou bem melhor. Bem, ainda me canso mais e com maior facilidade, mas não sei dizer se isto é resultado dos efeitos colaterais da quimio ou simplesmente pela falta de condicionamento físico ou os dois fatores combinados, afinal, lá se vão mais de um ano e meio sem me exercitar. Mas... (tem sempre este advérbio para atrapalhar), esta semana estive em consulta com o médico responsável pelo transplante e levei algumas broncas. Quer dizer, “bronca” maneira de dizer. O médico é extremamente educado, gentil e delicado na maneira de expor o que está acontecendo. Não é do tipo que dá uma bronca. Ao contrário da minha médica do tratamento do mieloma propriamente dito. Esta sim me dá altas broncas. Também, devo dizer que não sou um paciente exatamente... exemplar, entende? (o Ministério da Saúde adverte: seguir os mesmos passos que eu, tendo mieloma, pode trazer sérios riscos a sua saúde). Como eu sempre tive saúde para dar e vender, certas coisas nesta nova fase, sem saúde, me soam assim... sem sentido e acabo ignorando. Mas estou me desviando do assunto.

        Quando cheguei ao médico, depois de ele olhar os exames de sangue e observar que meus linfócitos estavam ainda extremamente baixos, confessei que estava sendo um tanto quanto relapso nos meus cuidados pós-transplante. Ele me perguntou, como? E eu passei a relatar as coisas que eu fazia, tais como, pegar metrô lotado, comer em restaurantes com comida à kilo expostas, frequentar festas de aniversário e comer os salgadinhos e doces expostos e continuei; e cada uma destas peripécias era acompanhada por um cerrar dos olhos e apertar da boca por parte do médico. Mas a gota d'água foi quando eu disse que na semana anterior tinha participado de uma feira internacional de revestimentos por dois dias onde tive contato com todo tipo de gente de diversos estados e outros países o tempo todo. Aí ele fez uma careta de censura e balançou a cabeça negativamente. E, delicadamente, começou a conversar: “Você parece ser do tipo que só acredita vendo, não? A gente nunca acredita que pode acontecer conosco até que acontece”. Bem, acho que ele tem razão. Sou mais ou menos assim mesmo. Daí ele começou a relatar alguns pacientes dele que tinham vindo a óbito, ou seja, tinham morrido mesmo. Um deles morreu devido a um rotavírus (pra mim um problema tendo em casa uma criança de três anos que frequenta escolinha), outro por salmonella, continuou dizendo que se uma infecção oportunista se instalar, como uma pneumonia por exemplo, o tratamento é muito difícil e posso acabar tendo o mesmo fim. Viram?! Não foi uma bronca mas, pra bom entendedor, meia morte basta. Veja bem, hoje eu sou como um índio de uma tribo isolada que nunca teve contato com nenhuma doença do homem branco. Tribos inteiras foram dizimadas assim, simplesmente pela transmissão de doenças. E eu estou correndo o mesmo risco, e pior, sem uma defesa no corpo que possa ajudar a lutar contra a doença.

        A outra médica, a das broncas, diz que eu tenho muita sorte; prefiro pensar que alguém lá em cima gosta de mim. Mas nem por isso devemos deixar de fazer nossa parte; procurar o tratamento é uma delas e seguir o tratamento é outra. Prometo rever meus conceitos e ser mais cuidadoso. Afinal, eu sei que um dia vou acabar morrendo, aliás, todos nós, mas nem por isso vamos adiantar o processo, não é mesmo?!

        E pelo menos até junho (previsão do final deste ciclo de quimios) o quadro não vai mudar muito. A quimio dificulta a reabilitação da medula. E, como diz Lenine, “Enquanto todo mundo espera a cura do mal... Eu finjo ter paciência” afinal, “...o mundo espera de nós um pouco mais de paciência”, “...A vida é tão rara, tão rara”. Linneu F S

 

 

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Meu nome é Linneu. Geralmente não falo meu sobrenome porque é estrangeiro e eu detesto estrangeirismo, parece pedante e nem todo mundo entende. É Santos, de origem européia, creio que portuguesa (rs). Sou formado em Economia e pós-graduado em Marketing, ah, e estou no fim do curso de Teologia (que espero terminar este ano se nenhum transplante me atrapalhar de novo). Mas eu adoro escrever, sempre gostei. Escrevi várias peças, um livro e sempre escrevi crônicas. Logo que minha filha nasceu escrevi várias como se ela estivesse relatando suas primeiras impressões do mundo. Foi muito divertido. Quando fui diagnosticado com mieloma, em novembro de 2015, não pude deixar de relatar minhas impressões também e, claro, como vocês já devem ter percebido, de um jeito divertido (nem sempre, mas na maioria das vezes). Afinal, o câncer não é o fim... quer dizer, às vezes é, mas nem por isso vamos adiantar o processo. Espero que vocês gostem do que vou relatar e que seja um momento de alívio cômico em meio a essa saga que é um tratamento como esse, afinal “rir é o melhor remédio”, mesmo quando não cura.

Veja todos os textos na fanpage: Memórias de um Mieloma – Mieloma Diaries https://goo.gl/AqJck7

 

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