Notícias e Destaques DIÁRIO DE UM PACIENTE: A última... por enquanto

        No último dia primeiro de junho, me submeti a minha última quimio. Não, meus queridos, vocês não vão ouvir fogos de artifícios, nem dizeres emocionados, nem nada equivalente. E o motivo é bem simples: esta foi minha... quarta... “última quimio”. Foram seis no total, três ciclos completos, duas de alta dose e o famoso “mel falante” no pré-transplante. É claro que você fica um tanto quanto anestesiado, e até certo ponto, cético. Estou alegre é claro. Os efeitos colaterais dos remédios são chatos e indesejáveis. Me livrar da quimio representa um grande passo de volta a normalidade. Mas deve ser encarado assim “um grande passo”, ainda não é o fim.

        Muita gente não vai entender esta minha publicação. Como eu, uma pessoa de fé, pode estar assim tão cético? Bem, meu relacionamento com Deus é algo um pouco diferente. Tenho muita fé, e sei que Deus é um ser muito, mas muito, muuuuito grande. Sei também que o amor Dele tem o mesmo tamanho senão, o que o faria se importar com um montão de seres insignificantes num pequenino planeta girando ao redor de uma estrela de quinta categoria na periferia de uma galáxia mediana (se alguém se ofendeu, me desculpe, mas são dados astronômicos).  E se preocupar mesmo, a ponto de mandar seu Filho até aqui. Mas, sem se desviar muito, Deus costuma usar os meios que ele mesmo criou: como a natureza, os dons e talentos distribuídos às pessoas, o tempo, entre outros. Deus faz milagres? Com certeza, eu mesmo já presenciei um muito simples e muito singelo. E o fato de ter sido poupado de alguma “infecção oportunista”, no linguajar médico, neste período pós-transplante, pode também ser considerado um milagre. Acreditem: eu não fui um paciente exemplar, muito pelo contrário. Estou vivo pela misericórdia Dele. Ou como diz minha médica (para aqueles que não têm a mesma fé) “Você tem muita sorte”.

De qualquer modo, Deus tem usado e guiado os profissionais que tem me tratado desde o início, pessoas competentes e dedicadas que me ajudaram a chegar até aqui. Centenas de pessoas têm orado por mim, além das minhas próprias orações. Sem dúvida isso ajuda muito, mas em última instância, a vontade Dele sempre prevalecerá. E qual seria essa vontade?! Acho que nem quando estiver no céu vou ter competência suficiente para responder esta pergunta.

E qual o próximo passo, então? Agora, tenho que esperar o efeito da quimio amenizar e a medula estar funcionando plenamente. Lá para julho farei todos os exames novamente e aí... veremos. Um dia de cada vez e muita paciência, minha e de todos que me acompanham. Quem sabe da próxima vez o título da crônica pode ser “Aquela foi a última”.

 

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Broncas e Bicicletas

 

 

 

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Meu nome é Linneu. Geralmente não falo meu sobrenome porque é estrangeiro e eu detesto estrangeirismo, parece pedante e nem todo mundo entende. É Santos, de origem européia, creio que portuguesa (rs). Sou formado em Economia e pós-graduado em Marketing, ah, e estou no fim do curso de Teologia (que espero terminar este ano se nenhum transplante me atrapalhar de novo). Mas eu adoro escrever, sempre gostei. Escrevi várias peças, um livro e sempre escrevi crônicas. Logo que minha filha nasceu escrevi várias como se ela estivesse relatando suas primeiras impressões do mundo. Foi muito divertido. Quando fui diagnosticado com mieloma, em novembro de 2015, não pude deixar de relatar minhas impressões também e, claro, como vocês já devem ter percebido, de um jeito divertido (nem sempre, mas na maioria das vezes). Afinal, o câncer não é o fim... quer dizer, às vezes é, mas nem por isso vamos adiantar o processo. Espero que vocês gostem do que vou relatar e que seja um momento de alívio cômico em meio a essa saga que é um tratamento como esse, afinal “rir é o melhor remédio”, mesmo quando não cura.

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