Notícias e Destaques Diário de um Paciente: Melodia

 

            Quando fui diagnosticado com Mieloma em novembro de 2015, lembro-me da médica sentando comigo calmamente e dizendo que tinha duas notícias, uma boa e outra ruim. A boa é que eu não corria risco de vida, não ia morrer, nada disso. A ruim é que a doença não tem cura, você vai ter que se tratar pro resto da vida.

            Hoje, quase dois anos depois, (gente, como o tempo passa, estão vendo há quanto tempo vocês me acompanham?!), vejo que não é bem assim. Nos encontros de portadores de Mieloma, como o que estive na semana passada, vemos dezenas de pessoas que foram diagnosticadas há dezenas de anos vivendo muito bem e sem nenhum sintoma. Neste encontro tinha uma senhora com mieloma há 23 anos. Vivendo muito bem. Eu sei, eu sei, oficialmente e no linguajar médico, as pessoas não estão curadas, elas estão em “remissão”, mas na prática... Por outro lado, nas comunidades da qual faço parte na internet, toda semana recebo posts de pessoas comunicando a morte do pai, da mãe, do tio, esposo, conhecido, ou seja, pessoas, sim, morrem devido ao mieloma.

            Ontem foi a vez de Luiz Melodia. O que??? É! Apesar de muitos  jornais terem noticiado apenas que ele morreu de “um tipo agressivo de câncer na medula”, ele tinha sido diagnosticado com mieloma há uns dois ou três meses, já em estágio bem avançado. Foi hospitalizado, não sei os detalhes, mas deve ter se submetido às quimios de alta dose, como as que passei ano passado, e já foi encaminhado para o auto transplante de medula ao qual se submeteu mês passado. Não resistiu. Nem foi por causa da idade, tinha 66 anos. Durante o meu próprio, conheci um senhor com mais ou menos essa idade, também transplantado, que estava melhor que eu.

            Isso me faz lembrar: E eu? (nós, se pensar nas centenas de pessoas com mieloma lendo esse artigo) Vou morrer de mieloma? Depois dos últimos resultados negativos minha mulher ficou bastante impressionada. Começou a olhar pra mim daquele jeito que ela olhava no começo. Sabe?! De pessoa que está num enterro olhando o caixão. Já passou, já voltou ao normal. Eu diria que provavelmente não. Pra dizer a verdade, ultimamente está mais fácil eu morrer num acidente de carro do que de mieloma. Mas, seja de um jeito ou de outro, em última instância, é aquilo que eu sempre disse: “Só vou morrer quando Deus me levar”. Isso sempre me deixa tranqüilo. Sei que alguém beeem mais competente que eu e até os médicos está cuidando do assunto.

            Mas o lado bom de tudo isso. Gente, lado bom?? O cara morreu. É, mas ele, sendo famoso, quem sabe as pessoas divulguem mais essa doença e isso ajude a salvar outras vidas. No mesmo encontro da semana passada vimos que existe um percentual muito alto de pessoas cujo diagnóstico é bastante tardio. Não duvido que o próprio Melodia possa ter sido vítima disso. Os médicos não têm ideia de com o quê estão lidando e acabam encaminhando os pacientes de maneira completamente errada. Conheci uma garota que demorou oito meses para ser diagnosticada. Oito meses!! Pode ser a diferença entre a vida e a morte. Quem sabe, depois da sua morte, ele ainda possa dar mais esta contribuição, além da música.

            Descanse em paz, Pérola Negra!

 

---

Confira outros textos da coluna Diário de Um Paciente com Linneu:

A primeira vez a gente não esquece

Igual de bebê

Super-heróis

Mascotinho

Limites

Por que eu?

Mel Falante

Broncas

Broncas e Bicicletas

A última...por enquanto!

Aventuras hospitalares

Cada dia Conta

 

 

 

 

 

******************************************

Meu nome é Linneu. Geralmente não falo meu sobrenome porque é estrangeiro e eu detesto estrangeirismo, parece pedante e nem todo mundo entende. É Santos, de origem européia, creio que portuguesa (rs). Sou formado em Economia e pós-graduado em Marketing, ah, e estou no fim do curso de Teologia (que espero terminar este ano se nenhum transplante me atrapalhar de novo). Mas eu adoro escrever, sempre gostei. Escrevi várias peças, um livro e sempre escrevi crônicas. Logo que minha filha nasceu escrevi várias como se ela estivesse relatando suas primeiras impressões do mundo. Foi muito divertido. Quando fui diagnosticado com mieloma, em novembro de 2015, não pude deixar de relatar minhas impressões também e, claro, como vocês já devem ter percebido, de um jeito divertido (nem sempre, mas na maioria das vezes). Afinal, o câncer não é o fim... quer dizer, às vezes é, mas nem por isso vamos adiantar o processo. Espero que vocês gostem do que vou relatar e que seja um momento de alívio cômico em meio a essa saga que é um tratamento como esse, afinal “rir é o melhor remédio”, mesmo quando não cura.

Veja todos os textos na fanpage: Memórias de um Mieloma – Mieloma Diaries https://goo.gl/AqJck7