Notícias e Destaques Diário de Um Paciente: Domanubumabe

 

        Meu pai era escultor. Das minhas lembranças da adolescência e pré-adolescência, muitas delas, são de visitas a exposições, vernissages, bienais (ele mesmo participou de duas delas). Lembro-me de uma vez ter ido a uma exposição de Manabu Mabe no bairro da Liberdade. Pra quem nunca ouviu falar, ele era um pintor, imigrante japonês, vindo ainda criança para o Brasil nos primeiros barcos. Já falecido. O que dizer?! Se eu tivesse condições, os quadros dele são do tipo que teria em minha sala. Geralmente uma tela pintada de cor forte e escura e sobre a qual outras tintas eram literalmente espalhadas, muitas vezes criando uma textura em alto relevo. Mas eu dizia na época e digo agora, jamais vi um outro pintor que conseguisse “espalhar” as tintas com tamanha harmonia e beleza. Sempre gostei. Arte é assim, toca as pessoas de maneira diferente.

        Mas o que tudo isso tem a ver com meus MM’s? É que esta semana começou minha nova quimio e mais uma vez um remédio com nome estranho entrou no rol. Depois do “Grande louquinho” e do “Mel falante”, dos quais já falei em artigos anteriores, agora é a vez do “Domanabumabe”. É, ou algo parecido. A quimio foi... em uma palavra, “punk”. Merece um capítulo à parte que logo vou escrever. Mas a esperança... O que esperar deste novo medicamento? Eu só quero que, assim como o mestre das tintas, este remédio saiba espalhar os químicos pelo meu corpo de maneira tão bela e harmoniosa que do resultado saia uma nova obra de arte. As telas não consigo ter na minha sala mas os químicos já estão espalhados fazendo seu trabalho. Agora é aguardar. Um longo caminho ainda será percorrido.

        Em tempo: o nome do remédio é Daratumumabe. Que é isso?? Vê se eu tenho condições de gravar um nome desses. Sempre fui péssimo para nomes. Teria que levar uma “colinha” na carteira pra lembrar. Este já ganhou apelido. Vai ser Domanabumabe messsmo. É mais chique também. O nome original parece nome de tribo perdida em Botswana. “A tribo dos daratumumabes...”


 

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Meu nome é Linneu. Geralmente não falo meu sobrenome porque é estrangeiro e eu detesto estrangeirismo, parece pedante e nem todo mundo entende. É Santos, de origem européia, creio que portuguesa (rs). Sou formado em Economia e pós-graduado em Marketing, ah, e estou no fim do curso de Teologia (que espero terminar este ano se nenhum transplante me atrapalhar de novo). Mas eu adoro escrever, sempre gostei. Escrevi várias peças, um livro e sempre escrevi crônicas. Logo que minha filha nasceu escrevi várias como se ela estivesse relatando suas primeiras impressões do mundo. Foi muito divertido. Quando fui diagnosticado com mieloma, em novembro de 2015, não pude deixar de relatar minhas impressões também e, claro, como vocês já devem ter percebido, de um jeito divertido (nem sempre, mas na maioria das vezes). Afinal, o câncer não é o fim... quer dizer, às vezes é, mas nem por isso vamos adiantar o processo. Espero que vocês gostem do que vou relatar e que seja um momento de alívio cômico em meio a essa saga que é um tratamento como esse, afinal “rir é o melhor remédio”, mesmo quando não cura.

 

 

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Igual de bebê

Super-heróis

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Aventuras hospitalares

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Melodia