Notícias e Destaques Diário de um Paciente: Você já assistiu o filme 500 dias com ela?

O filme, homônimo, relata os 500 dias de um relacionamento amoroso intenso e conturbado, cheio de idas e vindas até o seu término. No último dia dezoito de fevereiro, completou-se 100 dias pós transplante e percebi que, por uma coincidência, também lá se vão 500 dias desde que o ortopedista me pediu para “procurar um oncologista urgente”. Claro, os meus 500 dias com ela (a doença) não tem nada a ver com um relacionamento amoroso; intenso, sem dúvida; cheio de altos e baixos também. Mas se fosse um relacionamento estaria mais para aquela namorada de que você quer se livrar a todo custo e não consegue. Acho que todo mundo já teve um relacionamento assim quando mais jovem.

E agora estou chegando num impasse. Um dia antes dos 100 dias fiz um exame de sangue completo para ter uma idéia de como estou. O pedido do exame é engraçado, parece uma sopa de letrinhas: VHS, DHL, TGO, TGP , Na, GGT, Tucupi, Tacaca, FHC e sei lá mais o quê. E tudo isso só para se ter uma ideia do que está acontecendo. Acho que nunca cheguei a comentar por aqui mas, o tipo de Mieloma que tenho é raro, acomete menos de 1% das pessoas com esta doença. É chamado “não secretor”. Simplificando, ele não deixa pistas no sangue para identificar a evolução ou não da doença. Enquanto outros pacientes com Mieloma podem ser acompanhados através de exames de sangue, no meu caso, os exames servem apenas para se ter uma noção de como está meu corpo e se tem algum indício de que tem algo errado. Por exemplo, o fator DHL mede se tem algum processo infeccioso em evolução, o valor máximo é de 400. Quando dei entrada no hospital no ano passado, meu fator estava medindo 900. Entenderam? Mas quando a doença está forte, é fácil perceber. Tem outros fatores: dores, mal estar, fraqueza. O complicado é como estou agora. Estou me sentindo super bem, mas só vou saber com certeza o que está acontecendo quando fizer a próxima biópsia, o que ainda não é conveniente fazer porque a medula ainda não está funcionando 100%. Ô coisa complicada.

Mas é isso. Só espero que esta doença não vire um filme de Hollywood e resolva ter uma continuação: “Mais 500 dias com ela”. É o tipo de filme que não estou querendo ver. Estou mesmo é querendo me livrar dessa “namorada” a todo custo.

 

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Meu nome é Linneu. Geralmente não falo meu sobrenome porque é estrangeiro e eu detesto estrangeirismo, parece pedante e nem todo mundo entende. É Santos, de origem européia, creio que portuguesa (rs). Sou formado em Economia e pós-graduado em Marketing, ah, e estou no fim do curso de Teologia (que espero terminar este ano se nenhum transplante me atrapalhar de novo). Mas eu adoro escrever, sempre gostei. Escrevi várias peças, um livro e sempre escrevi crônicas. Logo que minha filha nasceu escrevi várias como se ela estivesse relatando suas primeiras impressões do mundo. Foi muito divertido. Quando fui diagnosticado com mieloma, em novembro de 2015, não pude deixar de relatar minhas impressões também e, claro, como vocês já devem ter percebido, de um jeito divertido (nem sempre, mas na maioria das vezes). Afinal, o câncer não é o fim... quer dizer, às vezes é, mas nem por isso vamos adiantar o processo. Espero que vocês gostem do que vou relatar e que seja um momento de alívio cômico em meio a essa saga que é um tratamento como esse, afinal “rir é o melhor remédio”, mesmo quando não cura.

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