Notícias e Destaques Diário de Um Paciente: É PIC, é PIC, é PIC, PIC, PIC

No primeiro filme da saga dos X-Men, a personagem da Vampira, pegando carona no caminhão do Wolverine (a quem tinha acabado de conhecer), olha pras mãos do mesmo ao volante e faz a seguinte pergunta: “Dói quando elas saem?”, se referindo as imensas garras metálicas rasgando a sua pele ao aparecerem. Ao que ele responde, sem largar o charuto das mãos, “Toda vez...”.
Outro dia tentei estimar o número de picadas que eu já tomei nos braços (e até pescoço) desde o começo do tratamento. Cheguei a um número aproximado de 100 picadas (deve ser maior). E se o Wolverine me perguntasse se dói cada vez que a agulha entra, eu responderia, sem largar o chocolate das mãos, “Toda vez...”.
Mas porque estou falando nestas picadas? Nesta última estadia no hospital começaram a falar de um tal de pic que iam fazer comigo. Quando estive hospedado no mesmo por dois meses passei meu aniversário ali e me trouxeram bolo, cantaram parabéns, essas coisas. Pensei que o pic tinha algo a ver com isso. Mas estranhei, pois meu aniversário é só em novembro. Ledo engano... Não era “pic” e sim “PICC”, Cateter Central de Inserção Periférica (a sigla vem do inglês). Que decepção. Não ia ter bolo mesmo. No lugar um longo fio enfiado no meu braço esquerdo que ia até a parte central do corpo. Do lado de fora ficava aquele acesso... um tanto incômodo. Humm... o que dizer?! É um cateter. Já tinha estado assim antes. Só eram um pouco diferentes. A vantagem é que com este dispositivo, pararam as picadas para... retirada de sangue, para por o soro, para introduzir antibiótico e muitas outras coisas.
Mas não pense que parou por aí. Minha médica, espertamente, trouxe o francês para a equação. Sim, o “Jaque”. “Já que” pusemos esse PICC, o qual é provisório e deveria tirá-lo antes de sair do hospital, deveríamos estudar por em você um “PORT-A-CATH” (por “deveríamos estudar” entenda-se “já está decidido e vamos colocar antes de você sair do hospital”). Apesar do nome de alta costura, trata-se de um cateter que fica embutido, embaixo da pele. Ainda não me acostumei com aquela protuberância alguns dedos abaixo do meu ombro direito. Tenho a impressão que vou bater, que vai doer, que aquilo vai quebrar. Bem, com uma filha de 3 anos que adora pular em cima do pai, vivo levando sustos. Mas até agora está tudo certo. Claro, deixando as brincadeiras de lado, é a atitude mais responsável e mais correta, afinal ainda me faltam quase 30 sessões de quimio (sim, o número é esse). Minhas veias não agüentariam tanto veneno.
E assim vamos, sem a dor das picadas. Jamais devemos nos acostumar com a dor. A dor nos lembra que estamos vivos e que algo incomoda. Para nós, o mieloma representa esta dor. O tratamento dói; doem as químios; doem as repentinas idas para o hospital; dói sua filhinha acostumando a ver o pai no hospital. Mas não devemos nos acostumar. Isso tudo só deve servir para ficarmos mais alertas e lembrarmos que estamos vivos e essa não é nossa condição. Devemos continuar lutando. E vai doer... “toda vez”.
Bom, e no final de tudo, a mais doída de toda as picadas, as injeções de Velcade, vão continuar sendo na barriga. Dessa não consegui me livrar…

 

 

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Meu nome é Linneu. Geralmente não falo meu sobrenome porque é estrangeiro e eu detesto estrangeirismo, parece pedante e nem todo mundo entende. É Santos, de origem européia, creio que portuguesa (rs). Sou formado em Economia e pós-graduado em Marketing, ah, e estou no fim do curso de Teologia (que espero terminar este ano se nenhum transplante me atrapalhar de novo). Mas eu adoro escrever, sempre gostei. Escrevi várias peças, um livro e sempre escrevi crônicas. Logo que minha filha nasceu escrevi várias como se ela estivesse relatando suas primeiras impressões do mundo. Foi muito divertido. Quando fui diagnosticado com mieloma, em novembro de 2015, não pude deixar de relatar minhas impressões também e, claro, como vocês já devem ter percebido, de um jeito divertido (nem sempre, mas na maioria das vezes). Afinal, o câncer não é o fim... quer dizer, às vezes é, mas nem por isso vamos adiantar o processo. Espero que vocês gostem do que vou relatar e que seja um momento de alívio cômico em meio a essa saga que é um tratamento como esse, afinal “rir é o melhor remédio”, mesmo quando não cura.