Notícias e Destaques Diário de Um Paciente: O próximo da vez

Recentemente adquiri o filme “Antes de partir” com Morgan Freeman e Jack Nicholson. Aqui uma observação: se você não é muito fã de cinema, mas gosta de ver filmes e está escolhendo algo para ver no Netflix ou similar e de repente se depara com um filme que tem estes dois nomes juntos nos créditos. Sabe o que você faz? Você assiste a esse filme. “Ah, mas que eu não gosto muito deste estilo...”. Não, não, não, você assiste. “Mas é que...”. Assiste ao filme. “É que...”. Zipt! Assiste e acabou. Você vai me agradecer depois.

Bem, já tinha visto no cinema, e uma vez depois, mas foi antes de ficar doente. Foi bem diferente vê-lo agora. O filme mostra dois pacientes de câncer em estado terminal; um playboy milionário e um culto, educado e inteligente mecânico. Juntos resolvem fazer uma lista de últimos desejos e pô-la em prática. O filme tem momentos hilários, como quando o playboy descobre a origem de sua bebida preferida, e momentos extremamente singelos como quando ele consegue um beijo da garota mais linda do mundo. Muito bom, merece ser visto.
Mas por que estou falando disso. Existe no subconsciente popular uma lista de famosos que não vão durar muito tempo. Basta dizer que está com câncer e começam a correr os boatos. E como boatos, longe da realidade. Lembro de ter ouvido, por exemplo, que o Gianecchini não sobreviveria. Está aí firme e forte. Tem sempre alguém famoso e o que há de verdade é que apesar dos boatos, ninguém sabe nada. No tempo em que Edson Celulari está em tratamento, Luis Melodia e Marcelo Resende descobriram a doença e se foram rapidamente, em mais um exemplo. E sabe por quê? Não é porque uma pessoa foi diagnosticada com esta doença, que ela deve, automaticamente, ser considerada como a próxima da vez a ir desta para melhor. Isso não existe. Recentemente fiquei muito chocado com a perda um amigo. Menos de 40, forte, sem problemas de saúde, esposa, um filho da idade da minha. Teve uma crise de asma, foi pro hospital e não voltou mais. Um conhecido do meu irmão, funcionário de uma grande multinacional, com um comércio bem sucedido aqui na cidade, onde trabalhava toda a família, teve um AVC enquanto trabalhava e se foi; em torno de 54 anos na época. Isso para dar exemplos pessoais. Temos inúmeros exemplos de esportes de alto risco em que atletas arriscam suas vidas e acabam morrendo por acidentes fora do meio esportivo.
Vendo esses exemplos, fiquei pensando: sabe quem deveria fazer uma lista de últimos desejos? Você. “Ô... sai seu agourento”. Não, é verdade, você, eu, todo mundo. Quando você chega naquela vitrine toda babada em uma maternidade, onde ficam os avós, tios, amigos e afins olhando aquela coleção de rechonchudos com cara de joelho; ao olhar pra eles, você não pode saber quem dali será um dia vendido para o PSG por R$ 1 bilhão, ou quantos serão pegos com R$ 50 milhões em seu apartamento, ou quantos terão uma vida normal, sem grandes agitos. Mas uma coisa você tem absoluta certeza: todos eles vão viver e um dia vão deixar este mundo.
O ser humano não deveria ter tanto tabu sobre o assunto. Todos os dias pessoas no mundo inteiro, de diferentes idades e posições sociais, e de diferentes maneiras, vão desta para melhor. E isso é assim, não podemos mudar. E não é porque estão com câncer. Seguramente, alguns de nós, doentes, também iremos, e outros ainda vão durar muitos anos. O fato de termos esta doença, não é o fator determinante para o dia da nossa ida.
O que eu recomendo, é que não precisa fazer uma lista de últimos desejos. Não fique encanado com isso. Viva a vida, tenha fé. A maioria sabe que sou Cristão. O que posso dizer?! Eu recomendo. Mas a vida é sua.
Espero não ter assustado vocês com o assunto. Prometo ser mais “light” na próxima.

 

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Meu nome é Linneu. Geralmente não falo meu sobrenome porque é estrangeiro e eu detesto estrangeirismo, parece pedante e nem todo mundo entende. É Santos, de origem européia, creio que portuguesa (rs). Sou formado em Economia e pós-graduado em Marketing, ah, e estou no fim do curso de Teologia (que espero terminar este ano se nenhum transplante me atrapalhar de novo). Mas eu adoro escrever, sempre gostei. Escrevi várias peças, um livro e sempre escrevi crônicas. Logo que minha filha nasceu escrevi várias como se ela estivesse relatando suas primeiras impressões do mundo. Foi muito divertido. Quando fui diagnosticado com mieloma, em novembro de 2015, não pude deixar de relatar minhas impressões também e, claro, como vocês já devem ter percebido, de um jeito divertido (nem sempre, mas na maioria das vezes). Afinal, o câncer não é o fim... quer dizer, às vezes é, mas nem por isso vamos adiantar o processo. Espero que vocês gostem do que vou relatar e que seja um momento de alívio cômico em meio a essa saga que é um tratamento como esse, afinal “rir é o melhor remédio”, mesmo quando não cura.