Notícias e Destaques Diário de Um paciente: Lutas

Detesto UFC. Podem me chamar do que for, mas ficar vendo dois brutamontes suados se agarrando no chão não é muito minha praia. Também, fui criado assistindo boxe. Lembro-me quando era pequeno, meu pai e eu (e posteriormente meu irmão) nas madrugadas de sábado esperando uma luta. Vi Cassius Clay mudar o nome para Muhammad Ali. Vi a luta dele com George Foreman. Vi quando Tyson foi nocauteado. Vi a mordida do Tyson na orelha do Hollyfield. E muitas outras lutas. Uma luta elegante. Pensa bem, um ser enorme de 100 kgs tem que derrubar outro ser igualmente grande usando apenas as mãos, cobertas por uma luva com enchimento super macia. E nada de agarrar o outro, se isso acontece o juiz já vem separar. Não à toa é chamando de “a nobre arte”.

        Claro, todos queríamos ver um nocaute. Mas, por vezes, a luta só era decidida nos pontos. E essas lutas também se tornavam interessantes. Já vi lutas em que um dos oponentes apanhava tanto no começo que você pesava “ih, não vai durar muito”, mas aí o outro lutador cansava e a luta ia mudando de lado. Vi luta onde um apanhava do começo ao fim. Perdia por pontos, mas não caía. Vi até uma luta onde um dos lutadores apanhou muito, muito mesmo, ficou com a cara desfigurada. Aí no último round ele achou força não sei de onde e nocauteou seu oponente... e... espera aí... não, não, esquece... isso foi no filme Rocky, o lutador. Aah, cinema.

        Atualmente eu só tenho uma luta, contra o mieloma e... como dizer... estou perdendo. Se fosse o Rocky minha cara já estaria inchada. No começo das publicações escrevi sobre Super Heróis e disse como somos dependentes de nossa família, nossos amigos, dos médicos e em última instância de um milagre. Bem, essa hora chegou, a do milagre.

        Não vou deixar de lutar, vou até o fim, por mais que apanhe. Vou continuar usando as armas que tenho, o meu bom humor (o dia que não tiver mais isso quer dizer que já morri), e o amor da minha família, o amor e apoio dos amigos, a competência dos médicos (e realmente são competentes) e se nada resolver, quem sabe um milagre.

        Não tem muito mais que possa ser dito, a não ser que continuo na certeza de que Ele sabe o que está fazendo e que existe um propósito em tudo isso. Mesmo que isto esteja muito longe do meu entendimento.

        E pra não deixar os fãs de UFC muito chateados, se a minha batalha contra o mieloma fosse uma luta, ela seria bem mais parecida com o UFC. Agora estaria imobilizado no chão com um brutamontes tentando me enforcar.

        Eu tinha prometido algo mais light para este artigo. De fato já estava até escrito. Mas precisava compartilhar esta situação com todos.

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Meu nome é Linneu. Geralmente não falo meu sobrenome porque é estrangeiro e eu detesto estrangeirismo, parece pedante e nem todo mundo entende. É Santos, de origem européia, creio que portuguesa (rs). Sou formado em Economia e pós-graduado em Marketing, ah, e estou no fim do curso de Teologia (que espero terminar este ano se nenhum transplante me atrapalhar de novo). Mas eu adoro escrever, sempre gostei. Escrevi várias peças, um livro e sempre escrevi crônicas. Logo que minha filha nasceu escrevi várias como se ela estivesse relatando suas primeiras impressões do mundo. Foi muito divertido. Quando fui diagnosticado com mieloma, em novembro de 2015, não pude deixar de relatar minhas impressões também e, claro, como vocês já devem ter percebido, de um jeito divertido (nem sempre, mas na maioria das vezes). Afinal, o câncer não é o fim... quer dizer, às vezes é, mas nem por isso vamos adiantar o processo. Espero que vocês gostem do que vou relatar e que seja um momento de alívio cômico em meio a essa saga que é um tratamento como esse, afinal “rir é o melhor remédio”, mesmo quando não cura.