Notícias e Destaques O Poder da Alimentação

 O Poder da Alimentação

 

“Tome cuidado com o vazio de uma vida ocupada demais” (Sócrates)

 

- Tia, me ajuda, o zig não quer comer, ele está dodói!

Com ares preocupado e uma lágrima correndo entramos na sala para examinar o amiguinho zig. Um boneco dinossauro de tecido que estava molengo do desgaste das lavagens, para Caio era fraqueza, por falta de comida.

 

Para ajudar, peguei uma porção de gaze e algodão e começamos a rechear novamente o bonequinho até que ficasse em pé novamente.

 

Aproveitando a cirurgia no amiguinho, começamos a conversar sobre o que Caio gostava ou não de comer e porque era importante comer bem direitinho para ficar forte como zig.

 

Caio tinha leucemia, era uma criança incrivelmente esperta e prestava atenção a tudo o que conversávamos. O conheci numa visita ao hospital ainda internado. Começamos a conversar sobre tudo o que gostava e como amava seu amiguinho.

 

Na empreitada para ensinar a comer, ele dizia gostar de frutinhas e alguns legumes (dado o desconto pela idade), mas gostava mesmo das comidas de bolinhas como feijões, ervilhas, grão de bico, almondegas, bolinhos de arroz, kibes etc... que podia comer com a mão e de uma vez só.

 

Descobrimos este padrão por seu gosto por bolinhas de gude, então estendemos sua brincadeira para toda sua alimentação, assim podíamos variar bastante e ele comeria de tudo e ficaria nutrido, forte para se recuperar.

A orientação devia ser estendida para toda família, para todas as refeições, feitas ou não de olhos virados ou narizes torcidos por uma gratuita pirraça infantil (dos pais).

 

A brincadeira com a comida e bolinhas durou pouco, 1 ano após o início do tratamento Caio estava restabelecido e bastante saudável. Bochechas avermelhadas, sorriso no rosto, pele corada, a anemia e ciclos de medicamentos não mais o cansava e ele passava os dias brincando.

No entanto o mundo do menino desabou quando ele precisou se mudar. A família seguiu um destino longínquo mas sua babá/cozinheira ficou na antiga cidade, o “peso” da nova orientação alimentar logo não seria mais um fardo.

 

Seus pais, muito ocupados viajavam muito, atuantes do mundo moderno dualizavam as orientações feitas com a praticidade da comida pronta. Preferiam praticar o discurso contra um radicalismo nutricional que eu supostamente havia imposto, pois afinal estava na moda o tema e se posicionar pró ou contra faz parte do engajamento social atuante no mundo atual. O que eles buscavam era compensar a distancia e falta de tempo juntos com presentes e sem cobranças ou responsabilidades, eles intuiam que talvez, não seria por muito tempo.

 

A nova babá não tinha muita paciência, se encaixava perfeitamente no perfil adotado de praticidade para a família. Não gostava de usar o boleador para o preparo das refeições do garoto, tão pouco ia à feira, dos utensílios de cozinha só usava os elétricos, não montava o prato adequadamente com o colorido de encher os olhos e motivar a criança e, raramente o fazia comer quando ia deixando no prato. Sua mãe, cansada e por vezes deprimida só pedia para que desse de comer à ele, para ela, isso parecia bastar.

 

Caio via que Isabel comia muito hambúrguer e batata frita, de vez em quando alguns nuggets, como comia tudo com as mãos este padrão também o interessou. Sendo esta comida de fácil preparo e já que todos gostavam, Isabel e seus pais foram levando os dias desta forma e a alimentação do menino passou de colorida a monocromática.

De tempero caseiro e muitas ervas de proteção passou a usar molhos prontos e muito sal. Trocou vitaminas e minerais da riqueza vegetal por empanados e pré-prontos carregados de aditivos. A sobremesa, o famoso “vale por um bifinho”, logo após uma refeição com carne, fazendo a clássica combinação do erro em que os minerais envolvidos competem entre si e não são absorvidos. Água, somente quando ele pedia, afinal não ia interromper a brincadeira de uma criança doente, não é verdade.

 

Não demorou muito Caio foi ficando cansado e triste, até que adoeceu e foi parar no hospital, de onde infelizmente não mais saiu.

 

Sua alimentação era tão pobre e tão pró inflamatória que toda que as células cancerígenas que estavam aquietadas logo ganharam um formato pré histórico, como ironia dizíamos ter acordado o zig em seu corpo.

 

Logo que o garoto foi internado com quadro grave de anemia, desnutrição subclínica e desidratação, os pais entraram em contato.

 

Após longa conversa eu descobri o panorama do drama familiar. Se embora fossem razoavelmente compreensivas as explanações para o desleixo, não eram de fato justificativas válidas para aquela conduta negligente. Por um excesso de zelo material, o menino adoeceu por falta de cuidados de atenção.

 

A família não comia em casa, então tudo o que pudesse ser comprado em pacotinhos que durasse bastante tempo era a melhor opção na lista de compras que faziam. Gastavam bastante dinheiro em comidas prontas, mas nunca de preparo caseiro. Restaurantes somente o que deixasse a criança à vontade, as escolhas eram claramente restritas. Caio vivia de comidas fáceis e rápidas que os pais também comiam e todos ali pareciam se divertir com este padrão. Se o garotinho estava comendo, melhor ainda, não importava o quê, ele estava comendo e se divertindo com os pais. No entanto, Caio adoeceu de fome oculta.

 

A criança comia mas não se nutria. Desnutrido, seu corpo não conseguia fortalecer seu sistema imunológico, não conseguia força para lutar até sucumbir à doença.

 

Como aquela criança não havia saído de uma crise grave já que há 1 ano tinha se recuperado tão bem, sendo a SOMENTE a alimentação a única intervenção modificada? A resposta estava incutida no padrão alimentar adotado pela família. Na bandeira oposicionista levantada pelos pais, travestida de praticidade.

 

O que poderia ter sido feito? A resposta era cristalina como a água que ele não tomava. Colorida como a dieta que havia sido deixada de lado. Se Caio tivesse sido mantido com sua alimentação natural com base em alimentos coloridos, vivos e ricos em nutrientes, certamente estaria entre nós por mais tempo. Se a família tivesse mudado seus hábitos, tivesse criado uma brincadeira ao redor da comida (“terrorismo” por mim sugerido), se tivesse de fato se envolvido com a doença do garoto, se tivessem tentado aprender ao invés de simplesmente se posicionarem no extremo oposto deste mundo dual que estamos vivendo, talvez ele poderia ter ido embora por obra do destino, mas jamais pelas mãos da negligencia familiar.

 

Daquele menino sorridente e feliz por ter recuperado seu amigo só me restou uma fotografia e a triste lembrança da culpa nos olhos dos pais, mas o fato é que a falsa idéia de estar agradando, levou dos braços daqueles pais a vida de uma criança que poderia ter sido muito diferente se os paradigmas da vida moderna tivessem sido quebrados, se a mudança de comportamento da família e cuidadores tivessem sido envolvidos e praticados e, principalmente se a simplicidade de comer tivesse sido adotada.

 

Desta triste história, um sábio ensinamento.