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Artigo 47
02/03/2009 -
 

Olá

 

Sempre que eu começo um artigo destinado a vocês tenho a impressão de que o que vou escrever é uma carta, porque uma carta a gente normalmente começa perguntando como está a outra pessoa, os familiares, a vida e esta é, sempre, a primeira idéia que me ocorre. Ao telefone também é assim: a gente liga, a pessoa atende e a gente solta um “e aí, tudo bem?”.

 

Mesmo que seja com outras palavras, é mais ou menos assim que funciona e  eu continuo torcendo para que a resposta de vocês a esta pergunta seja positiva.

 

Bem, estava eu aqui tocando a vida quando precisei de um determinado produto e, então, dirigi-me à loja onde normalmente o compro. Chegando ao lugar, deparei-me com outra loja. Dei uma volta na quadra pensando que talvez eu tivesse me enganado e passado do endereço, mas não, não houve enganos. A loja não se encontrava mais ali.

 

Pedi informações a uma senhora e obtive o endereço atual. Lá chegando, encontrei ao caixa o mesmo senhor que encontro há anos, com quem jamais travei além de um fio de conversa trivial, que não raro tratava da constatação de como tudo havia subido.

Desta vez eu abordei a questão da mudança de endereço e ouvi dele a seguinte história: a loja atual era do filho. A dele ele precisou vender após um enfarte que, além de várias outras conseqüências, inutilizou o lado esquerdo do seu coração.

 

  “Meu coração, hoje, bate só pela metade”!

 

Ouvir aquilo, dito da maneira como foi dito, por uma pessoa de cabelos brancos de idade e com os olhos cheios de lágrimas, doeu.

Era final de tarde e eu completamente esquecida do que tinha para fazer na seqüência, liberei minha pressa para que ela fosse embora na frente e ali fiquei, conversando com ele. Na verdade, ouvindo-o, até a loja fechar.

 

Ele detalhou sua cirurgia e inteirou-me da gravidade de seu problema, antes esclarecendo que seu filho resolveu tocar o comércio para não abandonar um negócio que sempre esteve na família, mas mudou o endereço e fez as alterações necessárias para reduzi-lo a uma proporção adequada à atual realidade.

 

Bem, continuando, explicou que com a diminuição da capacidade cardíaca ocorre um acúmulo diário de água que compromete todas as suas funções orgânicas. Com isso, fora a insulina, ele toma 4 diuréticos junto com outros 18 comprimidos, perfazendo um total de 22 comprimidos por dia. Para o estômago agüentar, ele usa uma medicação que tem a função de minimizar o mal estar gástrico.

 

Sua pele está de um branco transparente e, pela ausência de marcas na face, creio que ele não sorri há um bom tempo. Suas palavras são como as palavras de um náufrago que, salvo no último minuto, não entende o porque da salvação.

 

Seus olhos espelham decepção junto com constrangimento. No tom de suas indagações, transparece a sua indignação: justo agora, quando seria o tempo de aproveitar os frutos da colheita, acontece isso com ele!

 

É, disse eu, e creio que foi esta a minha mais eloqüente frase durante todo o tempo.

 

Eu já estava me preparando para ir embora quando ele começou a contar a respeito de uma reportagem que havia assistido sobre pesquisas científicas. Que será possível saber, em pouco tempo, através da decodificação e análise da cadeia de DNA do bebê, quais as doenças que ele terá no futuro. Se terá um câncer, se terá um aneurisma, se terá um enfarte, se terá...

 

Foi aí que eu deixei de ouvi-lo e entrei em uma escuta surda, daquela em que a gente ouve apenas os próprios pensamentos enquanto a outra pessoa fala.

 

É o que acontece em praticamente todos os tipos de relacionamento, tanto pessoais quanto profissionais. A gente ouve, mas não escuta. Nossos pensamentos soam muito mais alto do que as palavras de nosso interlocutor. Quando a gente responde, trata-se apenas de um monólogo disfarçado de diálogo.

 

Tenho certeza de que todos vocês já protagonizaram as seguintes queixas: “você não escutou o que eu disse; você não entendeu nada do que eu falei; você não me leva a sério”. Quando uma pessoa coloca os seus pontos de vista a outra pessoa, se posiciona sobre a maneira como ela vê e sente as questões de vida, se não houver mão dupla, mas apenas predomínio do que é relevante para uma das partes, então não existe comunicação. O que acontece é uma intransigência calcada em valores imperativos que não negociam.

 

Muitos relacionamentos fazem água devido a isso.

 

Bem, na situação na qual eu me encontrava minha condição de ouvinte atenta e respeitosa sucumbiu frente à seguinte frase dita por aquele senhor:

 

Que maravilha será o dia em que já se puder saber, desde o nascimento, que doenças se terá no futuro.

 

Minha mente soou de imediato um alarme ensurdecedor piscando o seguinte letreiro: - pra que?

 

Qual é a grande vantagem em se saber desde sempre a doença que se terá no futuro?

 

Para que instalar o malefício do pânico em pais que deixarão de ser espontâneos em relação aos seus filhos, criando-os à sombra da alegria de uma infância lúdica, e passarão, temerosos, a criá-los como certeiros portadores de doenças em um amanhã que sabe-se lá como vai ser, ou até mesmo se irá chegar? 

 

Imprevistos continuarão existindo. Esta é uma prerrogativa que faz parte deste negócio que chamamos de vida e não me consta que seja possível decifrar a cadeia de DNA dos escorregões que a gente vive dando em suas imponderáveis cascas de banana.

 

Pensei ainda: não bastam os tantos fantasmas e paranóias que já assombram os sótãos das imaginações adultas?

 

Talvez os estudiosos da saúde passem a se debruçar sobre as doenças que resultarão do fato de se conhecer as previstas no DNA, pois, a humanidade poderá vir a perecer delas, ou devido a elas.

 

Maravilhoso será o dia em que para cada doença prevista já exista uma vacina que torne a pessoa imune a ela. Não sendo assim, qual a grande vantagem de se dizimar na alma de gerações a humana esperança na saúde, entendendo saúde como ausência de doenças?

 

Eu percebia que o senhor continuava a falar, mas já não fazia a menor idéia do que tratavam as suas considerações.

 

De qualquer maneira, não me senti confortável para me contrapor ao seu ponto de vista.

 

De repente, num descuido de minhas reflexões solitárias, ouvi-o dizer que ele tem esperanças de que a descoberta de possíveis doenças futuras possa ajudar a humanidade a se cuidar melhor, o que não foi o caso dele.

 

Ele cuidou da loja, dos negócios, mas esqueceu de cuidar de si e de cuidar de viver. Aí eu o entendi e quase pude apalpar a dor que saiu de sua alma inteira, hoje empenhada na difícil tarefa de acalentar seu frágil coração.

 

Despedindo-me, fui embora, levada pelos meus pensamentos que continuaram e percorreram territórios para lá de objetivos, enquanto eu olhava pela janela do carro o entardecer de um dia de verão, tendo todo o tempo que até então, segundo as previsões anteriores de minha agenda, eu não tinha.

 

É; eu já estava me esquecendo de como é lindo o céu sob o sol das seis da tarde!

 

Até a próxima

 

Gláucia Telles Sales

 

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