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Artigo 51
13/10/2009 -
 

 Olá,

Espero que estejam todos bem e vivendo da melhor maneira possível.

Por aqui, dia desses, ouvi de uma senhora que se considera velha, o seguinte: Gláucia, eu tenho muito medo de morrer, ao que eu respondi que, ultimamente, eu tenho muito medo é de viver.

Foi uma brincadeira, mas o que eu quis dizer a ela, e digo agora a vocês, é que a coisa anda feia pelo mundo afora. Parece que a natureza resolveu dar algum tipo de troco por inúmeros desmandos do homem e o homem, por sua vez, banalizou a vida. Juntando-se os dois, a natureza e o homem, estão em pé de guerra com a harmonia, com o bom senso, com a lucidez, com o ponderável, com a possibilidade de se fazer planos contando com um mínimo grau de certeza. Há uma inversão de valores de maneira geral e até o último capítulo das novelas já não premia o mocinho e pune o bandido como em outros tempos. É as coisas mudaram, mas isto só faz algum sentido para quem viveu em outros tempos. Para quem não viveu, o mundo está como sempre foi.

Lembro-me de uma música cantada pela Cássia Eller que diz assim: “o que é que esta acontecendo, o mundo está ao contrário e ninguém reparou”. 

Bem, eu reparei, eu reparo, mas apenas não deixo que este estado de coisas atinja minha vida além do que me é impossível evitar. É uma questão de escolha.

Por isso repito que minha colocação à senhora foi apenas retórica, parte da piada, porque viver continua sendo uma questão de escolha, por mais difícil que seja dar conta das dificuldades.

Quem tem alguma doença limitativa sabe a que estou me referindo.

É por isso que eu sempre pego carona com quem tem exemplos de superação para dar.

Eu sei que a vida da pessoa não é igual à minha, sei que as bases familiares sobre as quais ela se assenta não são as minhas. Sei que os recursos que ela teve para chegar até aqui e enxergar a vida da maneira como a enxerga não são os meus, mas às vezes é bom e útil usar o farol do carro dos outros para iluminar o próprio caminho. Emprestar a lanterna alheia para jogar fachos de luz nos cantos escuros da própria vida.

Uma das maneiras de se fazer isso é conversando.

Quando nós conversamos, nós abrimos o nosso campo de visão para outras perspectivas e, às vezes, a outra perspectiva é apenas uma visualização mais clara daquilo que estávamos pensando em nosso isolamento.

Um dia desses, eu conversava com uma amiga sobre algo que estava me aborrecendo além do que eu pensava que deveria me aborrecer. Eu me criticava por considerar que talvez estivesse valorizando demais o que não deveria ser valorizado. Minha amiga, então, me disse: - “Escuta; porque você acha que esse é um privilégio só seu? Eu me aborreço, e muito, com isso”. Foi quando descobri que ela já passara, mais de uma vez, por situação semelhante.

Por isso conversar faz bem. Quando conversamos, existe a possibilidade da troca de experiências que nos fortalece e, dentre outras coisas, nos leva a entender que não estamos sozinhos. Que as batalhas da vida só mudam de endereço.

Outra questão muito importante do se conversar, é que podemos fazer novos contatos e, com alguma sorte, novos amigos. E amigo é um valor que nem a atualidade, nesta sua desvairada insensatez, é capaz de mudar.

Amigo é aquela pessoa que fica quando os outros vão embora.

Amigo é aquela pessoa que ajuda a esvaziar os pacotes de sal do dia a dia.

Amigos são raros. São limitados. São poucos, mas daquele pouco capaz de suplantar, por maior que seja, a quantidade dos outros que não são amigos. Com amigo, a questão é de qualidade.

Vinícius de Moraes há muito tempo escreveu:

               

 "Precisa-se de um amigo. Não precisa ser homem. Basta ser humano, basta ter sentimentos, basta ter coração. Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir.            

Tem que gostar de poesia, da madrugada, de pássaros, do sol, da lua, do canto dos cantos, dos ventos e das canções da brisa.
            Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.
            Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo.
            Deve guardar segredo sem se sacrificar.
            Não é preciso que seja de primeira mão, nem é imprescindível que seja de segunda mão.
            Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados.
            Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro, mas não deve ser vulgar.
            Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vazio que isso deixa.
            Tem que  ter ressonâncias humanas e  seu principal objetivo deve ser o de ser amigo.
            Deve sentir o que as pessoas tristes sentem e compreender o imenso vazio dos solitários.
            Deve gostar de crianças e, se for preciso, voltar a ser criança para alegrá-las.
            Procura-se um amigo para gostar dos muitos gostarem. Que se comovam quando chamado de amigo.

            Que saiba conversar de coisas simples, de orvalho, de grandes chuvas e de recordações da infância".
           

Eu gosto de levar poesias, poemas, letras de músicas até vocês. Eu sempre espero que elas sensibilizem e amoleçam um pouco corações que porventura possam estar duros. Eu sempre espero que a beleza das palavras do artista leve um pouco de colorido a um possível dia cinza.

Eu sempre espero que as coisas boas sobre as quais eles falam possam não se distanciar tanto das coisas que a realidade apresenta, porque eu sempre espero que a gente possa dar um jeito de blindar com aço o pessimismo para que ele não vaze.

Aliás, já notaram como é chato conversar com pessimistas?

Por isso, quando resolverem conversar, escolham fazê-lo com quem lhes faz bem. Escolham pessoas simples e sensíveis. Essas costumam ser as melhores. Pessoas boas de coração, que não complicam muito, não ficam procurando pelo em ovos e muito menos colocando mais lenha na sua já enorme fogueira.

Pessoas que lhe digam “calma! Tudo vai dar certo”, mesmo quando você já sabe que não será assim. É que o mais importante, às vezes, não é se dará ou não certo, mas é aquele segundo no qual ela ajudou você a acreditar que daria. Porque nesse segundo você respirou fundo e teve esperanças e a esperança continua sendo aquela luz no fim do túnel que costuma fazer com que a gente lute para atravessá-lo.

Nos resgata do negativismo e nos dá munição para mais um tanto de caminhada.

Para terminar, fiquem com o final do poema de Vinícius:

 

           "Precisa-se de um amigo para não enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia. Dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.
            Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e dos caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
            Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque se tem um amigo.
            Precisa-se de um amigo para se parar de chorar.
            Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.
            Que bata nos ombros sorrindo e chorando, mas que nos chame de amigo, para se ter consciência de que ainda se vive.
            Precisa-se de um amigo para se deixar de ser só!"

 

Um abraço amigo a todos

Gláucia Telles Sales

 

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