Olá!
E começamos um novo ano, a despeito de todas as tragédias, a despeito de todas as bonanças.
A idéia do novo sempre é muito boa, faz bem ao coração daqueles que sonham com uma chance de recomeçar e acreditam que a ocasião é um momento propício para se iniciar uma nova maneira de ver e de viver a vida. Talvez, no fundo, isto se dê com todos nós, pois, assim como eu, acredito que cada um de vocês tem o seu quinhão de desejo de mudança. Afinal, quem não pensa em mudar situações que não estão legais? Quem não aspira à felicidade?
Falar em felicidade é vago, pouco informa e talvez só se chegue a um sentido quando a nomeamos, quando dizemos ser feliz é...
Em minha infância e adolescência circulava pela turma um poema que listava uma série de possibilidades do que era ser feliz, ou do que é ser feliz, uma vez que nada mudou tanto assim em se tratando das expectativas humanas. Quando junto a familiares e amigos nos abraçamos nos breves segundos da virada do calendário no dia 31 de dezembro, cantamos o tradicional muito dinheiro no bolso, saúde para dar e vender. E entra ano, sai ano, podemos constatar que o ponteiro de nossa bússola pessoal aponta sempre para o mesmo norte de ideais: além de dinheiro no bolso e saúde para dar e vender, nós queremos ter mais tempo para gozar a vida, mudar o que precisa ser mudado e obter sucesso em todos os nossos empreendimentos.
Enfim, normalmente curtimos o primeiro feriado, embalados pela paz de todos os nossos bons desejos. Eu disse normalmente porque toda regra tem exceção.
Uma pessoa me contou que havia comprado um champanhe caríssimo e finas taças para ostentar o brinde familiar. Antevendo com júbilo o momento de comemoração, organizou o passo a passo criteriosamente. De repente, do nada, uma bobagem dita descambou em uma discussão entre todos e a noite de festa foi completamente destruída. O vinho nem chegou a sair da geladeira e as lindas taças escolhidas a dedo atestaram o fato de que mudanças nos relacionamentos não se dão pela mágica de brindes e nem pelo encanto do acaso. Frustração e tristeza pelo sonho desfeito, acalentadas em três dias de solidão, foi o saldo exibido no divã.
Uma outra pessoa me disse que no último dia do ano nem saiu de casa. Pensou em sua família e em sua namorada e concluiu que assistir à virada pela TV e, na seqüência, um filme, valeria mais a pena. Foi o que fez, enquanto saboreava um miojo. Confessou que sentia saudades de ceias passadas, quando acreditava que era feliz e que feliz seria para sempre. Hoje, concluiu, isso acabou.
Penso que todos temos nosso quinhão de felicidade que foi embora, de saudade que dói no peito, de lembranças de um tempo para o qual queremos voltar, mas só voltamos nas asas do pensamento. Aposto que vocês conhecem e sabem cantar a composição de Lupicínio Rodrigues que ficou consagrada na voz de Caetano Veloso:
Felicidade foi se embora
E a saudade no meu peito ainda mora
E é por isso que eu gosto lá de fora
Porque sei que a falsidade não vigora
A minha casa fica lá de traz do mundo
Onde eu vou em um segundo quando começo a cantar
O pensamento parece uma coisa à toa
mas como é que a gente voa quando começa a pensar
É. Quem não canta, ou já cantou esta música, pelas suas razões particulares?
Quem já o fez é capaz de encontrar sentido no que poetizou Fernando Pessoa.
Nada sabemos da alma, senão da nossa.
As dos outros são olhares, são gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança no fundo.
A grande questão é que vivemos com os outros. Os escolhemos pelas afinidades e torcemos pelos dribles nas divergências a fim de que possamos compor, juntos, uma história. Construir, juntos, uma vida. Só nos esquecemos que esta não é propriamente uma tarefa fácil.
Dá trabalho, para além de todas as boas intenções brindadas.
Requer paciência, requer tolerância, requer esforço, requer discernimento, requer boa vontade, requer persistência e uma alta dose de respeito pelo próprio direito e o direito da outra pessoa de ser feliz.
Muitas vezes, quando se trata de lidar com doenças, nós conseguimos atingir todo este estado de coisas além de nos descobrirmos muito mais fortes do que pensávamos ser. Levantamos a bandeira de nossa coragem e vamos à luta, desafiando todas as dificuldades que se impõem no dia a dia. Nos surpreendemos e surpreendemos a todos com a nossa capacidade de superação.
Ouvi dia desses de uma pessoa que enfrenta um câncer de mama, após a sua segunda sessão de quimioterapia, que ela jamais imaginou conseguir enfrentar tudo da maneira como está enfrentando. Ela se muniu de uma disposição surpreendente, cumpre à risca a dieta prescrita pela nutricionista e, até agora, não sentiu enjôo, não vomitou, não se abateu. A única alteração que sente é na sensação quente-frio.
Como é maravilhoso constatar a nossa reserva impensável de força e capacidade de lidar com momentos limites.
Lembrando os dois relatos que ouvi e contei a vocês, penso em como é também maravilhosa a constatação quando ela implica em lidarmos com limites que dizem respeito aos nossos relacionamentos. Quando são eles os doentes.
Como é bom dar um basta ao brinde da infelicidade. Seguir conselhos poéticos nos sacudindo de nossa letargia:
Não se acostume com o que não o faz feliz, revolte-se quando julgar necessário.
Alague seu coração de esperanças, mas não deixe que ele se afogue nelas.
Se achar que precisa voltar, volte!
Se perceber que precisa seguir, siga!
Se estiver tudo errado, comece novamente.
Se estiver tudo certo, continue.
Se sentir saudades, mate-a.
Se perder um amor, não se perca!
Se o achar, segure-o! (Fernando Pessoa)
Portanto meu brinde a vocês, e a mim, por todo este ano, será para que consigamos virar cada jogo que precisa ser virado, independente de quais sejam as questões em campo.
Não vamos nos acostumar ao que não está bom, ao que não está bem, maquiar o momento com cores de alegria se ele é espiado, o tempo todo, por olhos que refletem tristeza. Pode ser festa, a roupa pode ser nova e a casa estar arrumada, mas se a alma não estiver arrumada, esquece!
O brinde será feito em cristal quebrado.
Abraços a todos e até a próxima
Gláucia Telles Sales