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Artigo 55
18/02/2010 -
 

Olá

 

Um dia desse eu li uma frase cuja autoria desconheço.  É a seguinte: "Deus move o céu inteiro naquilo que o ser humano é incapaz de fazer. Mas não move uma palha naquilo que a capacidade humana pode resolver".

A frase me fez pensar em uma questão relativa a milagres, mais precisamente, em quais deles competem a Deus e quais competem a nós.  Onde terminam os limites de nosso poder e onde começam os limites divinos quando se trata de criar milagres.

Pode ser fácil enxergar a delimitação quando, frente ao risco, já exploramos todas as nossas possibilidades, esgotamos todas as nossas idéias, exaurimos todas as nossas condições de ação e nada mais nos resta a não ser esperar por uma intervenção vinda do alto.

 Mas e até chegar a este ponto onde claramente se subentende a quem compete a reversão do irremediável, como fica a questão do milagre? É aí que a coisa pega e me pegou ao ler “... não move uma palha naquilo que a capacidade humana pode resolver”. Além de todas as dúvidas, me pegou porque capacidade humana é uma coisa pra lá de complicada.

Nós sabemos algumas coisas sobre ela a partir do previsível, do rotineiro, do que guarda uma certa semelhança com o já experimentado. O estranho não é tão estranho, o extraordinário traz traços ora já vistos, a surpresa tem um quê de familiaridade que não deixa ninguém ser pego de calça curta. Afinal, todo mundo tem um currículo de vida suficientemente lotado de experiências que legitimam vários talentos.

Em contrapartida, quando se trata de lidarmos com situações de fato inusitadas, que testam o limite de nossas forças, exigem o máximo de nossa coragem, nem sempre sabemos o suficiente de nós. Do quanto seremos capazes de ficar em pé, resistir e sinceramente confiar que tudo dará certo. Que tudo irá se resolver da melhor maneira possível.  

Ouço com freqüência, de pessoas que a vida pôs à prova, que elas não sabiam que conseguiriam reagir como reagiram, por mais que sempre tenham imaginado como seria. Estavam longe de conhecer a realidade de sua capacidade de superação.

Então eu me pergunto: será que a condição humana de realizar milagres reside nesta capacidade? A capacidade de superação?

Será que é ela quem carrega o DNA da boa sorte? Que habilita a pessoa a encontrar um caminho quando todas as estradas se mostram impossíveis de serem percorridas? Quando todas as portas estão fechadas? Quando não há luz no fim do túnel? Quando o cenário se configura com um nada mais a ser feito?

As grandes dificuldades sejam elas quais forem - de saúde, financeira, de comportamento, de relacionamento - envolve muito sofrimento para os envolvidos. Muitas vezes a sensação que se tem é de ter perdido o chão.

Nestas horas, como filhos, nós rezamos ao Pai pedindo ajuda.

Como seres humanos, rogamos a Deus por um milagre.

Chico Buarque escreveu “Pai! Afasta de mim este cálice”. Todos nós, em algum momento da vida, temos cálices cujo conteúdo não queremos beber. Queremos torná-lo mais doce, mas fácil. E diante de cálices assim, iniciamos uma mobilização interna que não sabemos onde vai dar, mas que sempre resulta em transformações.

Lembro-me de Neguinho da Beija Flor e das transformações ocorridas em sua vida a partir do momento em que ele recebeu o diagnóstico de câncer de intestino. Passada a tempestade das quimios, da cabeça careca, das lágrimas, da insegurança pela total falta de certezas, ele partiu para um recomeço. Casou-se em plena avenida do samba com sua companheira de anos e tornou-se religioso:

 

 “Com esse puxão de orelha que Papai do Céu me deu, me tornei religioso. Toda quarta-feira tem oração lá em casa com um grupo de amigos evangélicos”.

Parece que a conversão vem sempre a reboque de uma grande ameaça. Talvez por isso as religiões preguem que se o homem não vai a Deus pelo amor irá pela dor, e aqui me lembro de outra leitura que fiz: “existem muitas religiões, porque existem muitas pessoas infelizes. Uma pessoa feliz não precisa de religião. Uma pessoa feliz não precisa de templo, nem de igreja, porque para uma pessoa feliz, todo o universo é um templo, toda a existência é uma igreja. Uma pessoa feliz não tem nada parecido com uma atividade religiosa, porque toda a sua vida já é religiosa”. Desconheço o autor, mas achei interessante a idéia de que uma pessoa feliz vive, em essência, em comunhão divina.

Será, então, que a capacidade de superação que leva a pessoa a experimentar milagres está condicionada a ela ser feliz? Será que ser feliz faz parcerias infinitas com o ter garra e ser um pronto guerreiro para qualquer batalha? Será que ser feliz torna a pessoa capaz de tirar água do poço de impossibilidades e não a deixa duvidar, um segundo sequer, de que seguirá em frente sejam quais forem as pedras do caminho?

Bom, e o que é ser feliz? Como se chega a este estado? Dá para comprar em alguma boa proposta de auto-ajuda?

Complicado, não é?

Uma coisa puxa a outra, que puxa a outra e nos leva ao mesmo ponto de partida: o que cabe à capacidade humana nas palhas que Deus não move.

Isso é conversa que pode dar pano pra manga, como se diz no popular. Pode enveredar para muitos lados, e sem correr o risco de errar, limito um: cabe à capacidade humana a possibilidade de compartilhar experiências que podem contribuir para que haja muitas superações.

Quando uma pessoa compartilha a sua experiência, quando conta a sua história, ela pode levar luz a alguém que estava no escuro. Uma história aqui, outra ali, pode formar um guindaste de fé e levantar quem estava caído. O compartilhar é solidário e solidariedade pode fazer milagres. E milagres geram muita felicidade.  

Neguinho da Beija Flor acredita que o fato de ter tornado o seu câncer público foi uma das melhores coisas que já fez. Ele teve solidariedade do mundo inteiro e descobriu que tinha muitos amigos. Fortalecido, ele percorreu oito capitais brasileiras e países da América Latina lançando-se de corpo e alma na campanha Laços de Esperança, voltada para a conscientização do câncer de intestino, o quarto tipo de câncer mais freqüente no Brasil.

A cor do laço que Neguinho até hoje usa é verde, e eu pergunto a você: qual é a cor do laço que você usa?

O sentimento no coração de Neguinho é de esperança, e o sentimento em seu coração, qual é?

Independente das circunstâncias atuais de sua vida, você é uma pessoa feliz?

Repetindo que uma coisa puxa a outra, que puxa a outra, a minha proposta é de que você dedique um tempo para pensar em você. Pense se você está atento aos cuidados que devem ser seus. Junte tudo o que já lhe aconteceu na vida e reflita se você realmente acredita que é capaz de superar suas dificuldades.

Quanto a Deus, eu não tenho dúvidas de que Ele, sem jamais descuidar de você, acredita que sim, você é capaz.

 

Até a próxima

 

Gláucia Telles Sales

 

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