Olá
Um dia desses ouvi de uma pessoa que está fazendo sessões diárias de radioterapia o relato de sua jornada nesta etapa do tratamento. Foi inevitável pensar em vocês, porque foi inevitável pensar em guerreiros. Foi inevitável pensar que morrer é fácil e que difícil é arregaçar a coragem e lutar pela vida segundo a segundo, dia após dia, vestir novas esperanças em todas as manhãs de qualquer tempo nesta batalha que se torna para sempre.
Lidar com câncer é um cuidado para sempre.
Por isso me lembrei de vocês, guerreiros que lutam com a doença em suas tantas fronteiras, porque, como eu já falei e escrevi tantas vezes, só guerreiro enfrenta o que há para ser enfrentado nesta seara. Não se entrega, não desanima e não raro se torna exemplo a ser seguido. Exemplo de força, exemplo de atitude positiva, exemplo de tenacidade, de persistência.
Lembro-me, enquanto escrevo, de um garoto de 13 anos, Lucas, filho único, que em tratamento de leucemia veio a falecer devido a complicações originadas por uma bactéria que ele adquiriu no hospital. Foi no mês de junho passado. Embora o coração partido, embora o sofrimento pela perda de seu bem maior, sua mãe escreveu aos amigos e conhecidos agradecendo pelas correntes de oração enquanto Lucas esteve internado.
Peço licença a Lília para reproduzir, aqui, trechos de sua carta:
Todos que estiveram em sintonia conosco tendo em Lucas o ponto de intercessão, queremos expressar nossa gratidão pelas palavras que nos dirigiram e que muito ajudaram e estão nos ajudando minimizar a imensa dor que representa a perda definitiva da presença física de um filho... queremos que saibam que cada palavra que nos enviaram contribuiu para que pudessemos ir aos poucos encontrando algum alívio e vislumbrando outros sentidos para a nossa própria vida, profundamente abalada pela falta daquele que a complementava na constituição de nosso conceito de família. A cada dia temos que encontrar meios para superar a tristeza que nos assola, mas temos cada vez mais sido iluminados para a descoberta de novas formas de superação, sustentadas na certeza de que Lucas permanece conosco, de uma forma difícil de explicar, talvez impossível de demonstrar, mas muito fácil de sentir, pois foi a marca de nossas relações: amor, carinho, cuidado, compreensão, ternura, respeito, afeto. Estes e outros sentimentos permanecem e neles sentimos a presença do Lucas.
Estes dias, enquanto separávamos materiais que nosso filho usou recentemente, nos deparamos com seu caderno e suas últimas tarefas escolares... Por se tratar de uma escola confessional, havia a matéria religião, e nos chamou a atenção as respostas que ele deu às questões propostas, duas das quais transcrevemos:
Q- Se as diversas religiões existentes já pregam o amor, a paz, a solidariedade, a união, o que está errado?
R= As pessoas e o modo como elas pregam essa paz
Q- O que pode ensinar as pessoas a respeitarem mais as diversas religiões?
R= Elas respeitarem a si mesmas e aceitarem os outros e o que as outras religiões pregam.
Estas respostas breves e, a nosso ver, precisas, expressam um pouco da essência de Lucas. São marcas que ficam para os que o conheceram. São marcas que ele leva gravadas na alma, como parte de seu processo de formação na família e na escola. E nos ajudam a superar a dor da ausência, pois se tornam um tipo de presença permanente...
Lilia termina a sua mensagem desejando as bençãos e a força de Deus para que ela e o marido, Anselmo, continuem o que há para ser continuado: as estações de suas vida, que hão de ser muitas.
Hão de ser muitas porque eu penso que Deus não dá ponto sem nó. Não dá o acaso a quem tem muito a contribuir para que a humanidade se torne melhor. Como os tantos Lucas, as tantas Lílias, as tantas Marias, Christines, Vânias, Raquels, Lúcias, Iaras, os tantos Anselmos, Archibalds, Brunos, pessoas que levantaram e levantam a bandeira da fé mesmo que nada faça sentido hoje.
Pessoas que escolheram compartilhar as suas experiências ao invés de se fecharem em casulos de lamentações. Pessoas que aprenderam que, quando se reparte, alivia-se o peso da carga.
Eu sei que não é fácil. Aliás, nada é fácil quando se trata de lidar com questões que passam por dor, por doenças crônicas, por doenças graves, por perdas. Há, inclusive, quem prefira nem nomear, ou tocar no assunto, como se as palavras, ao serem pronunciadas, atraíssem maus presságios.
É certo que palavra é verbo, mas, se a sua força tece feridas, tece, também, bálsamos.
Por isso eu quero dizer a vocês, cata-ventos de esperança, que se tornam verdadeiras cartilhas onde eu aprendo lições que me sustentam em minhas tantas batalhas pessoais e profissionais, muito obrigada por existirem.
A dor que abate, e punge, e nos tortura,
que julgamos às vezes não ter cura
e o destino nos deu e nos impôs,
é pequenina, é bem menor, e até
já não é dor talvez, dor já não é
dividida por dois. (J.G.de Araújo Jorge)
Um grande abraço a todos
Gláucia Telles Sales