Histórias de Pacientes Linneu
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Depois de 15 dias em férias, carregando a Lanna pra lá e pra cá em um canguru, tinha mais do que certeza de que as dores lombares e no tórax eram resultado de tal abuso (mesmo que tais dores tivessem começado mais de um mês antes). Ao consultar um ortopedista, o mesmo havia receitado alguns remédios, mas por precaução, caso não fizessem o efeito desejado, já havia encomendado uma ressonância. E lá estávamos nós agora, no consultório do ortopedista enquanto ele examinava o resultado da ressonância. Eu digo “nós”, por que a Nel, num rompante de sexto sentido feminino, resolveu ir junto à consulta, algo normalmente desnecessário (os anos me fizeram aprender a não dar as costas a este sentido feminino). Bem, o médico lia o resultado com especial atenção. Seu rosto, vejo hoje em retrospectiva, era um misto de preocupação e urgência. Foi quando ele virou pra mim e perguntou: Você leu o resultado? Ao que respondi:  Sim... eu vi que existem algumas fissuras e micro fraturas... eu me lembrei que na última consulta esqueci de falar pro senhor que eu sofri um acidente dois anos atrás e ele não me deixou terminar:

- Não, não, não, não. É que aqui diz que essas fraturas são devido a uma “neoplasia”.

Eu que entendo “muito” de medicina, nunca tinha ouvido tal palavra e nem tinha tido a curiosidade de procurar saber do que se tratava. Logo expressei minha ignorância ao doutor. Ele então começou a responder num ritmo mais lento, quase como quem não queria dar esta notícia.

- Quer dizer que ... isto é de origem ... tumoral – falou a última palavra num volume muito mais baixo e mais pesaroso que o normal.

Fiquei um tanto quanto ... bobo. Era a primeira vez que ouvia tal palavra sendo referida a minha pessoa. E depois de ter feito um check-up completo, cinco meses antes, onde fui elogiado pela minha condição física, confesso que não entendi direito o que ele queria dizer com aquela palavra, “tumoral”. Foi só quando perguntamos qual seria o procedimento de agora em diante que “completou o download” (ia dizer que “a ficha caiu” mas tem muitos jovens no meu face). Ele respondeu que deveríamos procurar um oncologista urgente. É, aí eu entendi exatamente o que ele queria dizer com “tumoral”.  

Nel logo deixou aflorar seu lado alarmista e já solicitou nome de um bom especialista e dedicou-se a marcar a consulta ali mesmo antes de deixarmos a clínica. Enquanto eu lidava com o lado prático de buscar o receituário de mais um exame pedido pelo médico. Quando saímos de lá e chegamos ao carro ela não aguentou: chorou, chorou e chorou. Eu, no meu lado prático, apenas a consolava e lembrava que se tratava apenas de uma suspeita, de que acabamos de receber a notícia e não tínhamos nenhum diagnóstico. Isto foi numa quinta-feira, a sexta passou corrida como qualquer outro dia, tinha faculdade neste dia e pouco conversamos sobre o assunto. Claro, pesquisei sobre os tipos de câncer com esta característica e claro, as conclusões a que cheguei não tinham nada a ver com a realidade (esta maldita/bendita INTERNET). Mas serviu pra eu chegar no sábado pela manhã e conversar com ela sobre o assunto. Disse que não sabia o que seria mas que tudo indicava que era grave, que tínhamos que ter equilíbrio e confiar em Deus e mais uma série de coisas. Também notei algo que compartilhei com ela. Desde que ela recebera a notícia me olhava de maneira diferente. Sabe quando vamos a um velório e nos aproximamos do caixão ainda aberto? Olhamos para o defunto com aquela cara... misto de tristeza, com pena, com inconformismo; misto de um monte de coisas, mas vocês sabem de que cara eu estou falando. Pois é, ela estava me olhando assim. Alertei-a disto e a comuniquei de que eu não morreria antes de Deus me levar (a decisão já estava tomada desde então). Não adiantou muito, ao longo do dia a via me olhando com aquela cara novamente, e eu sempre chamava a atenção dela. Foi uma vez, duas, na terceira eu não aguentei. Juntei minhas mãos em cima do peito, fechei meus olhos e joguei a cabeça um pouco pra traz com a boca levemente entreaberta.  Quando ela viu a cena, percebeu o que estava fazendo e deu um sorriso. Foi o primeiro sorriso desde o início de tudo. Ela ainda choraria muito mais e com muito mais intensidade me confessaria depois, principalmente depois da minha internação. Cada um reage de um jeito. Ela chora, eu escrevo. Talvez ela seja mais normal que eu. Mas o que posso dizer é que não sei se teria escrito tudo o que escrevi nos últimos anos se ela não estivesse ao meu lado. No começo de tudo, Deus olhou para Adão ainda sozinho e disse que lhe faria uma ajudadora; como é bom olhar para sua própria esposa e perceber que ela é esta ajudadora e que Deus a fez só pra você.  Lembro ainda de uma entrevista de Oscar Niemeyer já em idade bem avançada dizendo: “A vida é a mulher do lado e seja o que Deus quiser...”. Assino embaixo.

Linneu F. S.

 

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