Histórias de Pacientes Gilda
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Olá, meu nome é Gilda e vim contar um pouco a história do meu marido, Abimael. Tudo começou na noite de 25 de novembro de 1995, quando fomos à cerimônia de casamento de um primo meu. Lá, meu marido recebeu um abraço muito forte de um amigo que não via há anos. Ficou com uma dor nas costas, suportável.

No final de dezembro fizemos uma viagem. Ele estava estranho. Mal-humorado, impaciente, e com aquela dor nas costas. Em 25 de janeiro sentiu uma fisgada nas costas, uma dor muito forte, ao trocar um pneu. Eu insistia para ir ao médico e ver o que estava acontecendo. Ele se recusava....."vai passar". Fazia tratamento de fundo na homeopatia. Mas estava cuidando de uma anemia com um médico amigo, pois o homeopata não pedia exames e dizia que ninguém tem o sangue completo mesmo.

Enfim, no dia 6 de janeiro de 1996 travou e não conseguiu mais se levantar. Dor imensa, só sentava para comer (só que não conseguia comer). Ficou com 40 kgs. Apenas em junho de 1996 foi fechado o diagnóstico: o homeopata disse para mim, "deixe-o na cama sossegado, pois ele não chega neste Natal". Aí eu corri, consegui convencê-lo a chamar médicos alopatas e fazer os exames necessários. Relutou para ser levado para exames. Os médicos iam em casa examiná-lo e pedir exames. Até que por fim, concordou comigo e, no maior sacrifício, o levávamos de ambulância para os exames.

Tudo no particular, pois não tínhamos convênio saúde. Por meio de um médico parente, ele foi internado no HC.

Nesses anos todos foi preciso muita coragem, fé, amor, paciência para tudo. Nossos dois filhos (Eduardo e Ricardo) colaboraram muito, já que esse quadro os pegou na adolescência ainda. No início me revoltei muito, mas não perdi o controle. Tratou no Hospital das Clínicas por 1 ano (sua médica lá até hoje é a Dra. Gracia Martinez).

O tratamento não era nada fácil. Muitas vezes íamos ao hospital 2 vezes ao dia. Após isso, realizou um único transplante, muito bem sucedido, em 5 de maio de 1997 ....nasceu de novo!

Ficou 5 anos recebendo Interferon. Em 2002 teve uma encefalite atribuída  ao Interferon. Parou. Foi dificílimo encarar esse acontecimento. Se recuperou e aposentou.

No decorrer desses anos todos, teve várias intercorrências, cirurgia para extrair a vesícula, onde conseguiu uma infecção que o levou à UTI. (frequentou várias). Mas venceu sempre!

Pneumonias.......SEPSE...........Enfim.....teve de tudo um pouco. E eu lá, cercando tudo, sugerindo exames aos médicos (porque a gente pode e deve SIM  fazer isso).

Recebia sempre os protocolos do momento. Fez parte da pesquisa do VELCADE no HC em 2008. O mieloma sumiu. Ficou 3 anos sem medicação.

Em 2011, com recidiva, como tinha direito a tratamentos no HASP-Hospital da Aeronáutica, iniciou lá o trabalho de hematologista, com o Dr. Leandro de Pádua. Sugeriu Velcade e passou a tomar novamente. Desencadeou-se um quadro de diarreia que o enfraqueceu muito e o fez emagrecer mais de 10 kgs em um ano. Mas a doença estava controlada, mas aparente. Agora no final de 2016, conseguimos na Justiça o Revlimid (bortezomibe). Começou a tomar neste mês de janeiro. Está muito bem. Até agora sem nenhuma reação e os exames estão bons.

Durante todos esses anos, ele frequentou academia. Ficava 1 hora se exercitando no Transport, um aparelho de pedalar em que muitas pessoas não conseguem ficar nem 10 minutos. Ele tem garra, vontade de viver, motivado pelo amor que lhe dedicamos. Ele é uma pessoa muito querida por todos, muito carismático. E eu, modéstia à parte, me considero seu Anjo da Guarda, como me qualificaram  nossos filhos,  pois permaneço atenta a qualquer sinal estranho, cobrindo-o de atenção e carinho (assim como nossos filhos) para que ele nunca esmoreça.

Fazemos isso porque sabemos que o que ele quer é viver. Ele tem suas limitações e nós as respeitamos, pois o amamos demais.

Antes do mieloma ele tinha 1,81m de altura, hoje tem 1,65m. Temos um netinho que está com 3 anos e 8 meses, o Lucca, que é mais um motivo de sua vontade de viver. Para conseguir lidar com tudo isso, aprendi a meditar. Ajuda muito. Hoje encaro a realidade de uma forma mais amena.

Em 2006 trocamos de apartamento. Meu marido precisou fazer espaço para colocar a lava louças. Fraturou 3 vértebras. Conseguimos na Justiça a Vertobroplastia. Quando a autorização saiu, o osso já estava colado! Aí ele teve dores. Não mencionei também minha nora, a Juliana, muito querida e atenciosa conosco. Foi pelo bom desempenho dela como advogada que conseguimos o Revlimid!!!Hoje ela não pode mais advogar, pois é funcionária do Tribunal de Justiça.

Menciono ainda que meu marido não sente as famosas dores do mieloma, graças a Deus!!! Quando ingressou em 1996  no HC disseram a ele que muito provavelmente não voltaria a andar. Entrava lá de cadeira de rodas. Ao sair, dirigia o próprio carro.

E lhe deram uma sobrevida de 5 anos! Usou muletas durante muito tempo. Nesse tempo íamos ao HC de metrô, pois morávamos perto. Depois usou  bengala. Nunca deixou de dirigir seu carro. Superou todas as dificuldades e limitações. Em março de 2015 quebrou a bacia e teve de colocar uma placa. Tranquilo. Estava se preparando para levar umas ressonâncias para o ortopedista quando caiu do nada na minha frente! Caiu por causa da fratura! As duas últimas pneumonias aconteceram em fevereiro e em agosto de 2016 com direito a UTI. Ficou meio abalado, assustado, pois todos se surpreendiam com os 20 anos de mieloma! Mas já se refez !!! E Bola pra frente!

 

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