Notícias e Destaques Efeitos colaterais gastrointestinais associados às terapias para mieloma

A IMF conversou com Page Bertolotti enfermeira certificada em oncologia, sobre efeitos colaterais gastrointestinais associados às terapias para mieloma

Page Bertolotti,  Enfermeira Certificada em Oncologia do Cedars Sinai Outpatient Cancer Center no Samuel Oschin Comprehensive Cancer Institute, Los Angeles, CA.

Page, por favor, defina como efeitos colaterais gastrointestinais estão relacionados ao tratamento de mieloma.

Efeitos colaterais gastrointestinais (GI) incluem constipação, diarréia, náusea e vômito. Efeitos colaterais GI podem ocorrer como resultado de qualquer terapia anti-câncer, de quimioterapias convencionais a tratamentos utilizando novos agentes, como lenalidomida (Revlimid®), talidomida (Thalomid®), e bortezomibe (Velcade®).Os efeitos colaterais GI podem ser tratados com intervenções médicas apropriadas, minimizando assim seu impacto na qualidade de vida do paciente e aderência à terapia. Os efeitos colaterais da quimioterapia convencional foram estudados ao longo dos anos, sendo assim, o Conselho de Liderança em Enfermagem (NLB – Nurse Leadership Board) da IMF focou-se no desenvolvimento de uma declaração de consenso para avaliação e tratamento de efeitos colaterais GI associados às novas terapias. As recomendações do NLB são o resultado de revisões baseadas em evidências, bem como um consenso da experiência dos membros do NLB. Estas recomendações são aplicáveis para o tratamento de efeitos colaterais GI causados por qualquer agente quimioterápico, novo ou convencional.

Que impacto os efeitos colaterais GI têm no paciente?

Os efeitos colaterais GI podem ter um impacto negativo na qualidade de vida do paciente, e podem inclusive interferir com a terapia ideal para o mieloma daquele paciente. O tratamento adequado das toxicidades GI tem mostrado um aumento na aderência ao regime de tratamento, diminuição no comprometimento fisiológico, melhora na qualidade de vida, diminuição dos efeitos psicológicos, como ansiedade e depressão, e prevenção de eventos adversos que podem levar à hospitalização, bem como outras complicações sérias.   Pacientes cujos efeitos colaterais GI são tratados também são menos prováveis de se tornar socialmente isolados. É importante lembrar que quando pacientes apresentam qualidade de vida diminuída, os profissionais de saúde também são afetados.

Como os efeitos colaterais GI são avaliados?

Os Critérios de Terminologia Comum para Eventos Adversos (CTCAe) do Instituto Nacional do Câncer (NCI – National Câncer Institute) são utilizados para identificar, quantificar e monitorar tratamentos relacionados aos efeitos colaterais. Os CTCAes do INC medem toxicidades de grau 1 a grau 5 (1 para leve, 2 para moderado, 3 para grave, 4 para ameaça à vida ou debilitação, e 5 para óbitos associados ao evento adverso). A graduação das toxicidades também ajuda a determinar se há a necessidade de modificações na dosagem.

Existem estratégias de tratamento para lidar com os efeitos colaterais GI que você possa dividir com nossos leitores?

Primeiro, eu gostaria de enfatizar que todos os pacientes devem relatar qualquer efeito colateral GI ao seu médico, que poderá lhe oferecer orientação para o tratamento de eventos adversos. Em seguida, médicos e pacientes devem avaliar os custos e benefícios de todas as intervenções de acordo com as circunstâncias e prioridades individuais do paciente. Se um paciente apresentar menos movimentos intestinais que o habitual, isso deve ser relatado.  Se dois ou três dias se passam sem movimentação do intestino, isto deve ser relatado imediatamente. O tratamento de constipação pode incluir aumento no consumo de líquidos, aumento no consumo de fibras, aumento da atividade física, ajustes nutricionais, laxantes estimulantes, supositórios ou medidas farmacológicas. Para prevenir constipação potencial induzida por opióides, uma dieta profilática deve ser considerada. Pacientes com níveis baixos anormais de eritrócitos, neutrófilos (granulócitos), e/ou plaquetas devem evitar agentes retais e/ou manipulação para tratar sua constipação. O tratamento de diarréia pode também incluir aumento na hidratação através de água, bebidas repositoras de eletrólitos, bebidas de nutrição enriquecida para esportes, sucos de frutas diluídos, e caldos, e evitar bebidas alcoólicas, cafeinadas, carbonadas e bebidas com alto teor de açúcar Pacientes com diarréia podem ser alertados com relação a alimentos com alto teor de fibras, alto teor de gorduras, e apimentados, bem como laticínios em geral. Se um paciente apresenta diarréia enquanto estiver recebendo terapia anti-mieloma que não seja conhecida por causar este efeito colateral, uma cultura ou outras medidas podem precisar ser tomadas para se averiguar a causa.

Quais são algumas estratégias de tratamento para lidar com náusea e vômito?

Náusea é uma sensação desconfortável ou desagradável no estômago ou no fundo da garganta. Ela pode ou não resultar em vômito. Muitos pacientes se preocupam que a náusea seja um resultado inevitável da terapia para câncer, e as expectativas dos pacientes com relação à náusea mostram-se correlatas com seu desenvolvimento durante o tratamento, então, a prevenção é um fator chave, especialmente no início da terapia.  Se um paciente tem (ou está em risco de ter) náusea, nós recomendamos intervenções profiláticas e terapêuticas apropriadas e também um plano efetivo de tratamento da náusea. Intervenções não farmacológicas podem ser utilizadas em conjunto com intervenções com medicamentos. Os pacientes podem se beneficiar da acupuntura, acupressão, imagens guiadas, musicoterapia, e relaxamento muscular progressivo. Com terapia anti-emética, cuidado e atenção, a incidência e gravidade da náusea podem ser reduzidas. Deve-se observar que algumas medicações anti-náusea podem causar constipação. Pacientes podem também apresentar náusea antecipativa, que ocorre antes de se receber um tratamento anti-câncer. Alguns pacientes começam a apresentá-la enquanto estão em casa, se preparando para ir à sessão de quimioterapia. A náusea antecipatória é uma resposta condicionada resultante de uma aversão que o paciente sente em relação à terapia. A náusea antecipatória requer estratégias preventivas que formam a base do tratamento da náusea associada à terapia. Um sedativo tomado antes do tratamento anti-mieloma pode reduzir ou eliminar a incidência da náusea antecipatória. O vômito é frequentemente confundido com náusea, mas é, de fato, um fenômeno separado que pode ocorrer ou não em conjunto com a náusea - algumas vezes, o vômito é precedido de náusea, e algumas vezes, não. O vômito é um mecanismo pelo qual o corpo tenta expelir toxinas. O vômito, juntamente com a náusea, é considerado um dos efeitos colaterais mais perturbadores e temidos do tratamento do câncer, mas pode ser um dos efeitos mais tratáveis hoje.  

Finalizando, há mais alguma coisa que você gostaria de dividir com nossos leitores?

Efeitos colaterais gastrointestinais como constipação, diarréia, náusea e vômito são alguns dos efeitos colaterais da terapia de câncer mais tratáveis, e eu encorajo os pacientes a reportarem prontamente suas experiências à sua equipe médica.  Nós entendemos que alguns pacientes sentem-se embaraçados de falar sobre constipação e diarréia. Nós entendemos que náusea e vômito são algumas vezes não relatados imediatamente, porque os pacientes acreditam que isto faz parte do tratamento, e tentam lidar com isso sozinhos.  “Eu não queria lhe incomodar”, eles dizem. Mas nós estamos aqui para ajudar nossos pacientes, e o tratamento adequado de efeitos colaterais garante um melhor resultado para eles.

20/04/2009