Notícias e Destaques Por que a resiliência é um fator importante para o paciente?

Por que a resiliência é um fator importante para o paciente?




 

 Resiliência é um conceito que foi utilizado, inicialmente, pela física para expressar a capacidade elástica que determinados corpos têm de voltarem ao estado anterior após sofrerem uma deformação. Após a década de 80, a resiliência tornou-se um conceito de abrangência multidisciplinar, assim, diferentes áreas do conhecimento se apropriaram do termo e o desenvolveram a partir de seus próprios construtos teóricos.

Na psicologia, diversas linhas teóricas desenvolveram sua própria compreensão acerca da resiliência. De modo geral, resiliência é a capacidade do sujeito enfrentar situações adversas de forma madura e adaptativa, considerando seus aspectos individuais, como genética, idade, fase do desenvolvimento, sexo, experiência e histórico de vida. Verifica-se também fatores contextuais, como o suporte social, nível sociocultural e ambiente. Estes fatores são caracterizados como fatores de proteção, pois a existência ou ausência deles pode alterar a resposta do sujeito frente as adversidades.

Doenças ameaçadoras de vida, como o câncer, são diagnósticos que costumam convocar o sujeito a uma reorganização existencial, uma vez que o diagnóstico é acompanhado por mudanças de estilo de vida, de relações, crenças e ideais. Além disso, junto ao diagnóstico também se apresentam questões relacionadas à finitude, ao desamparo e à impotência. Ou seja, doenças ameaçadoras de vida são exemplos práticos do que são as adversidades.

Esse tipo de adversidade, ao exigir uma reorganização existencial, costuma provocar uma crise existencial, pois, como dito anteriormente, afeta várias dimensões da vida do sujeito. Todavia, na era da modernidade e do mundo digital, não há espaço para o sofrimento, o que acaba gerando defesas como negação e isolamento. Muito tem se falado de resiliência também, mas buscando abafar o sofrimento, indicando que os problemas precisam ser superados rapidamente. Na mídia, os exemplos de sofrimento são apresentados apenas quando superados, sendo muito mais uma manifestação narcísica do que um auxílio.

Como enfrentar as adversidades e lidar com doenças ameaçadoras de vida numa sociedade que dificulta o desenvolvimento da resiliência? Não há como resolver um problema ou enfrentar uma adversidade sem admitir sua existência e suas consequências, como limitações e sofrimentos.

Ser diagnosticado com câncer e realizar tratamento oncológico requer uma fase de adaptação do paciente, pois é um momento em que ele precisa se reorganizar enquanto sujeito. Considera-se como momento de ruptura, de crise e fragilidade, mas é de extrema importância que esse sofrimento seja reconhecido e validado, pois é a partir disso que o paciente pode criar sentido para sua existência e para seu tratamento, como também ressignificar suas experiências e redimensionar sua vida. A forma que cada um enfrentará a situação é singular, pois se dará a partir de seu repertório, história de vida e suporte.

Portanto, para desenvolver resiliência, um dos passos iniciais é ter consciência das adversidades e do sofrimento. Quando temos consciência das perdas e dos ganhos de uma situação, desenvolvemos autonomia e somos capazes de refletir e decidir sobre os desdobramentos que essa situação pode ter ou não. Ou seja, a tomada de consciência propicia a elaboração de estratégias para enfrentamento e adaptação à situação.

No caso do câncer, quando o paciente se apropria do conhecimento sobre a doença, além de enfrentar e se adaptar de forma mais satisfatória a sua atual condição, também é capaz de tomar decisões junto à equipe médica sobre seu tratamento. O protagonismo do paciente em seu tratamento pode melhorar sua qualidade de vida, uma vez que possui liberdade e autonomia para poder agir de acordo com aquilo que lhe faz sentido.

O IMF busca informar, desenvolver autonomia e melhorar a qualidade de vida de seus membros. Pensando nisso, neste mês, gostaríamos de saber aquilo que te faz ser resiliente, quais são os fatores de proteção e aquilo te dá sentido e esperança, pois sabemos que uma doença não possui apenas consequências biológicas.

Amanda Ferreira, psicóloga pela UNESP-Assis e especialista em Psicologia Hospitalar pelo HCFM-USP. Atualmente, é residente de psicologia no programa de Residência Multiprofissional em Atenção Básica e Saúde da Família pela Universidade Nove de Julho