Notícias e Destaques COVID 19: Colaboração e Resiliência valem a pena

 

À medida que nos aprofundamos neste tempo de distanciamento social, é útil refletir sobre a nossa posição enquanto comunidade de mieloma múltiplo. Ser proativos parece estar a dar os seus frutos. Por exemplo, o Grupo de Trabalho Internacional sobre Mieloma (International Myeloma Working Group - IMWG), um grupo colaborativo de grandes pesquisadores sobre o mieloma em todo o mundo, está fortemente ligado e é capaz de reagir rapidamente em tempo de crise. Depois de ter me conectado esta semana com esta incrível rede de especialistas, a boa notícia é que os pacientes com mieloma múltiplo têm permanecido seguros em suas casas.

 

Pacientes de Mieloma na Ásia

 

A crise da COVID-19 começou na Ásia. Qual tem sido o impacto para os pacientes com mieloma por lá?

 

Os pesquisadores da Rede Asiática de Ensaios Clínicos para Mieloma (Asian Myeloma Clinical Trials Network – AMN) mostra que os doentes com mieloma múltiplo estão seguros. Nos locais onde temos a atuação da AMN, como em Pequim; Shanghai; Korea (com múltiplos centros especializados em mieloma); Singapura; e Japão (através da Sociedade Japonesa de Mieloma Múltiplo), relatam zero casos de COVID-19 em pacientes com mieloma múltiplo e nenhuma morte relacionada com a COVID-19. Na Korea, por exemplo, foram registradas 109 mortes por COVID-19, mas nenhuma destas de pacientes de mieloma. Em Singapura, apenas 2 mortes (no total), e no Japão, um total de 52 mortes.

Especialistas com quem falei atribuíram a segurança dos pacientes com mieloma múltiplo às orientações amplamente aceitas para os cuidados de pacientes com mieloma múltiplo na Ásia, que foram concebidas para serem conservadoras e sempre presar pela cautela. Parece que os pacientes com mieloma múltiplo de fato ficaram em casa. Os médicos de pacientes com mieloma informam que eles iam à clínica com extrema precaução, utilizando máscaras e sempre lavando cuidadosamente as mãos, que são os cuidados habituais na Ásia, onde muitas infecções são motivo de preocupação. (Estamos gratos aos médicos da AMN pelos seus rápidos relatos sobre doentes com mieloma múltiplo durante o surto da COVID-19).

 

Ponto Chave: É de extrema importância manter as medidas de precaução.

 

Pacientes de Mieloma na América do Norte e Europa

 

·      Infelizmente, há pacientes com mieloma múltiplo que sofreram infecções por COVID-19, especialmente nas áreas mais atingidas deda Itália, Espanha e França. No entanto, os números são relativamente pequenos. Na Itália, pacientes e mortes da COVID-19 tem ocorrido em pacientes com mais idade e que tem mieloma a mais tempo. Aguardamos mais detalhes da França e Espanha, onde pelo menos uma morte ocorreu tragicamente num doente recentemente diagnosticado e submetido a um primeiro ciclo de terapia tripla.

 

·       Desde 25 de Março de 2020, apenas dois pacientes foram notificados nos EUA: um na cidade de Nova York e outro em Houston. Com o caos e as dificuldades que caracterizam a pandemia do coronavírus, este impacto limitado nos pacientes comde mieloma múltiplo é, até agora, algo tranquilizador.

 

Ponto Chave: Com a crescente crise, devemos ter o máximo de precauções. Por favor, continue em casa e seguindo os guias que temos publicado recentemente, no Top 10 Perguntas de Pacientes de Mieloma sobre o COVID-19 na página da IMF.

 

Informações Úteis Adicionais

 

·      Perda do olfato:Grupos de médicos tem recomendado o teste de COVID-19 e o isolamento das pessoas que perdem o olfato e o paladar. De acordo com relatórios de todo o mundo, a perda do olfato é uma característica incomum da infecção pela COVID-19.

o  No Reino Unido, tem estado ligado a consequências trágicas: os especialistas em Otorrinolaringologia (ORL) têm estado em elevado risco de infecção pela COVID-19 após a realização de exames e procedimentos. Na Coreia, 30% dos 2.000 doentes que apresentaram resultados positivos informaram uma perda do olfato.

o  Na Alemanha, dois terços dos 100 indivíduos COVID-19 positivos diagnosticados com coronavírus foram questionados e referiram uma perda do seu olfato. Parece estar geralmente associada a infecção menos grave - por exemplo, não há normalmente pneumonia nem problemas pulmonares. Todos recuperam o olfato, embora pareça demorar algumas semanas e possa não ser uma recuperação a 100%.

o  Guia: Em situações onde o teste não é possível e/ou resultados ainda não estejam disponíveis, recomendamos auto isolamento por um período mínimo de 7 dias para todos aqueles que perderam seu olfato. Acredito que este é uma abordagem séria para limitar o contágio.

 

·      Fatores de risco para infecções sérias:Todos nós nos preocupamos profunda e adequadamente com o fato da imunidade de pacientes com mieloma múltiplo estar comprometida devido à doença e aos tratamentos. Mas há outros fatores muito importantes, chamados comorbidades, que também têm de ser considerados, tais quais:

o  IDADE AVANÇADA, especialmente a partir dos 80 anos, coloca as pessoas em maior risco. No entanto, como já vimos, todas as idades estão em risco. 

o   HOMENS estão em maior risco do que as mulheres, por razões desconhecidas. Isto esteve ligado ao tabagismo na China, onde muito mais homens fumam e têm doenças pulmonares subjacentes. Nos Estados Unidos, o vaping (tipo de cigarro eletrônico) é certamente uma preocupação.

o  DOENÇAS CARDIOVASCULARES é um risco relevante, especialmente a hipertensão arterial. O vírus COVID-19 liga-se aos receptores ACE (enzima de conversão da angiotensina) nas células para entrada. A tensão arterial elevada é tratada com inibidores da ECA, que aumentam os receptores da ECA2 nas células do pulmão, rim, intestinos e vasos sanguíneos. Os receptores da ECA2 estão muito aumentados na diabetes. Isto começa a explicar por que é que a COVID-19 é mais provável quando estes problemas estão presentes. Na China, entre aqueles que ficaram gravemente doentes, a tensão arterial elevada estava presente em 23,7% dos doentes, enquanto a diabetes afetava 16,2%. (Para aqueles que podem estar preocupados, as alternativas aos inibidores da ECA são os chamados canais de cálcio ou beta-bloqueadores. Estas incluem medicamentos como Norvasc/Procardia ou Lopressor/Tenormin).

 

·     Grupos de infecção: Cada vez mais, sabemos que a COVID-19 em diferentes regiões provém de grupos de infecção da dedoenças. Cada aglomerado tem fatores únicos. Nos Estados Unidos, o que o The New York Times chamou de "Party Zero", foi realizado no subúrbio de Connecticut, em Westport. Cerca de 50 pessoas reuniram-se para uma celebração de 40º aniversário. Um homem de negócios de 43 anos, da África do Sul, esteve presente e depois adoeceu no seu voo de regresso a casa. Pensa-se que ele seja o paciente zero, que acabou por infectar mais de metade do grupo. Este é considerado um evento de super contágio. Por fim, o Condado de Fairfield, onde fica Westport, desenvolveu 270 casos de COVID-19, 65% do total para todo o Estado. A infecção espalhou-se de forma selvagem antes dos convidados se aperceberem que estavam infectados vários dias depois. 

·      Estudando grupos de infeção: Uma pesquisa única de grupos de infecção e exclusiva do projeto iStopMM, apoiado pelo IMF, na Islândia. De forma urgente, o Prof. Kari Stefansson, CEO da CODE genética em Reykjavik, transformou o centro de sequenciamento da empresa (que está sendo utilizado para a sequenciamento de pacientes com MGUS/SMM/MM no estudo iStopMM) para fazer o rastreio voluntário da população da Islândia para o COVID-19. Esta é uma iniciativa brilhante e inovadora para compreender a ocorrência e propagação do vírus. (O Prof. Stefansson está confirmado com um dos principais palestrantes do IMWG (Internationa Myeloma Working Group - Grupo de Trabalho Internacional para Mieloma) de 2020).

 

·       Os primeiros resultados mostram que os casos de coronavírus que ocorrem na Islândia provêm de três grupos de indivíduos que regressam à Islândia vindos de Itália, Áustria, e de um jogo de futebol no Reino Unido. Com o rastreio precoce, estes grupos estão a ser isolados para evitar uma maior propagação. Além disso, uma constatação assustadora é que pode haver duas variações de COVID-19 - uma mais perigosa e infecciosa do que a outra. Isto pode explicar a variação da gravidade da doença em diferentes aglomerados. É evidente que a China, a Itália e a Espanha são os locais mais perigosos até o momento.

 

·       Outros fatores que afetam a gravidade da doença são a dimensão da carga viral da COVID-19 como parte da exposição inicial e a suscetibilidade subjacente do doente. Será ótimo se este tipo de informação puder ser desenvolvida para os padrões de doença dos EUA para ajudar a orientar as respostas de saúde pública.

 

Sugestão De Ações Para os Pacientes de Mieloma

 

·      Fazer todos os contatos de rotina por telefone, e-mail ou telemedicina.

·      Evite as idas ao mercado, e se possível faça encomenda para ser entregue em casa. Aqui está um vídeo do YouTube (https://youtu.be/zmoBI5m2_uw)extremamente útil que oferece dicas muito específicas para desempacotar as compras entregues em casa em segurança.

·      Certifique-se de que tem um plano de tratamento claro com o seu médico para as próximas semanas e meses. Tópicos a discutir:

o  NÃO a visitas à clínica, a menos que sejam essenciais para infusões contínuas ou cuidados urgentes.

o  Pode pular as infusões de Aredia ou Zometa neste momento?

o  Pode ser trocado algum medicamento por via intravenosa oupara oral? Por exemplo, talvez Ninlaro possa ser usado em vez de Velcade ou Kyprolis? 

o  A dosagem de dexametasona pode ser reduzida agora mesmo para reduzir os riscos de infecção?

o  Qualquer TMO planejado deve ser adiado.

o  Pode seguir em um teste clínico? Algumas partes podem ser adiadas ou executadas localmente? Um novo ensaio provavelmente não será iniciado agora. Pode ser necessário utilizar uma terapia de transição (usando uma combinação de medicamentos aprovados) para a terapia de recidiva por agora. 

o   Pode haver questionamentos especiais dependendo da sua própria situação. Por favor, certifique-se de que as suas preocupações e/ou perguntas sejam respondidas!

 

Opções Se Ocorrer Uma Infecção Por COVID-19

 

O principal objetivo dos doentes com mieloma múltiplo é evitar a infecção. No entanto, é reconfortante estar ciente de que estão em curso opções para administrar a crise:

·     Vacina: Infelizmente, isto vai demorar algum tempo. Utilizando a tecnologia convencional isto levará de 12 a 18 meses. Uma nova tecnologia que utiliza RNA está em avaliação e poderá oferecer uma vacina em menos de um ano. Vamos certamente precisar da vacina em 2021 e avançar, mas, realisticamente, não podemos esperar nada este ano.

 

·     Tratamentos diretos ou preventivos: Existem várias opções, mas todas elas requerem testes em ensaios clínicos. Estas incluem: Cloroquina e os vários antivirais, como o remdesivir de Gilead, bem como o plasma passivo imunoterapêutico de pacientes que recuperaram da infecção por COVID-19. A FDA (Órgão com funções similares à ANVISA no Brasil) e Ministério da Saúde estão acelerando a pesquisa desta técnica de terapia de infusão passiva.

 

Uma Palavra Final Para Honrar Os Profissionais De Saúde

 

Médicos, enfermeiros e equipes de saúde inteiras estão na linha da frente desta crise, a que o governador de Nova York, Andrew Cuomo chamou com razão de “batalha”. Trata-se de um trabalho corajoso, realizado com um elevado risco pessoal. Trabalhemos todos e defendamos que eles tenham o equipamento e os recursos de que necessitam o mais rapidamente possível. Não queremos repetir o sofrimento e a perda insuportáveis que ocorreram em Itália, onde mais de 30 médicos morreram devido ao coronavírus.

 

A resiliência é, neste momento, o ingrediente essencial para nos ajudar a trabalhar em conjunto, enquanto comunidade do mieloma múltiplo, para ajudar todos os que são afetados por este enorme desafio.